
    Urfe Trap  de uma famlia rica e desestruturada, resolve sair de casa para viver com Ktia, tambm vinda de um lar insatisfatrio. Tentam provar a si mesmos
que aquele amor  mais forte que tudo, mesmo sendo duramente criticados por tomarem essa deciso, esforam-se para sustentarem-se. Urfe e Ktia querem ter a certeza
de construiro uma famlia e um futuro em bases slidas.

Disponibilizao: Marisa Helena
Digitalizao: Marina
Reviso: Lizziane


    Ttulo original: Djanos Vivir
    Corin Tellado
    Fernando Chinaglia distribuidora S.A.
    Cedibra - editora brasileira ltda.
    composto e impresso pela cia. editora fon-fon e seleta
   Captulo 1
    Urfe Trap poucas vezes se zangava. Tinha uma pacincia invejvel. E naquele momento, ouvia seu pai, sem se alterar. Mas pensava, pois ningum podia evitar que,
enquanto seu pai falasse, ele pusesse o crebro a funcionar. Bastante, at.
    Urfe Trap tinha seu critrio de vida. Sua forma concreta de pensar e de nada adiantava seu pai falar e falar.
    Mas Peter continuava falando. E no reconhecia que pouco ou nada conhecia acerca do seu filho.
    Se Urfe tinha alguma satisfao, era que sua me no estivesse presente quela palestra. Porque uma coisa era ficar calado e outra bem diferente, ter que dizer 
as verdades diante da autora de seus dias. Sim, porque se Alice estivesse ali, dificilmente ele teria dito alguma coisa a seu pai.
    - Temos um bom negcio - dizia Peter, num tom de voz que pretendia ser persuasivo. - Voc est, portanto, cometendo uma tolice. Ns no vamos impedir que se 
case antes de terminar os estudos. Para que, ento, viver assim?
    Urfe se moveu na cadeira.
    Era um rapaz de vinte e quatro anos, forte, ombros largos, esguio. Olhos negros, expresso aguda, reflexiva. Tinha lbios finos e nariz aquilino.
    Vestia, naquele momento, cala de brim desbotada, camisa de xadrez e calava botas texanas de bico fino. Tinha um cachimbo apagado entre os dentes.
    - Voc me deixa nervoso, com essa coisa apagada na boca - dizia o pai, um tanto alterado. - Pegue um cigarro e fume-o de uma vez.
    Urfe continuou impassvel.
    - Prefiro ter o cachimbo apagado a boca. Fica com um sabor um tanto amargo.
    O pai no entendia certas sutilezas. Ele j estava fumando seu stimo cigarro.
    - Case-se, se assim quer. Ns o ajudaremos.
    - No creio que um papel possa decidir minha vida - murmurou Urfe, indiferente. - Nem aceito que tal papel me escravize. Nem Ktia nem eu estamos dispostos a 
mudar nosso modo de viver.
    - Mas isto no  modo de viver sensatamente.
    - Lembre-se de que sou maior de idade e vivo como bem entender; e continuarei como tenho vivido.
    O pai perdia a pacincia.
    - At h pouco mais de um ano, ainda dava para se falar com voc. No que fosse dcil, mas pelo menos, vivia dentro das normas sociais. Agora,  impossvel conversar 
com voc. No tem necessidade de trabalhar. E, se gosta de Ktia, o normal  traz-la aqui, para ns a conhecermos.
    - No penso traz-la to cedo, papai - retrucou Urfe, mordendo o cachimbo. - Vivemos em paz. Nem ela quer conhec-los, nem eu acho que precise.
    - Preferem viver juntos, sem se casarem? 
    Urfe ergueu uma sobrancelha.
    Pensava em muitas coisas acerca dos pais, mas absteve-se de coment-las. Pelo menos no o faria, a no ser que seu pai se tornasse insistente demais.
    - Sua me est sofrendo muito. Como  que voc pde nos deixar, indo viver por conta prpria, com uma garota solteira, sem que os dois pensem em casamento?
    O pai se levantou. Era um homem alto, elegante.
    Urfe sabia que Peter Trap era uma pessoa importante na sociedade novaiorquina, mas a ele no o impressionava. Vivera escravo de preconceitos durante muitos anos, 
at que um dia dera o grito de liberdade. E, apesar dos protestos dos pais, no se arrependia, nem pretendia voltar atrs.
    - Aos olhos da sociedade em que vivemos, o que vocs fazem  atroz! - gritou o pai, descontrolando-se de vez. - Eu lhe ofereo a oportunidade de se casar e continuar 
os estudos, de viver como pessoa decente. 
    - E eu - replicou Urfe, mansamente - creio viver decentemente. No tenho uma certido de casamento? De que me serviria, se em algum momento posso destru-la?
    - Sua me e eu no a destrumos nunca. 
    Por uma frao de segundo, Urfe pensou em falar, mas se conteve.
    - Amo Katia - disse, sem se alterar. - E ela me corresponde. Os dois estamos indo muito bem.
    - A que famlia pertence essa moa? No vai me dizer que tambm  maior de idade.
    - Claro que . E ambos somos conscientes. Temos uma meta e os dois a compreendemos e empreendemos juntos. Quanto a sua famlia, no me interessa, como a minha 
no interessa a Ktia. Vivemos para ns e o que nos dizemos  sincero; e se a sociedade precisar de ns, estaremos prontos a servi-la, mas sem permitir a ela nos 
subjugar, nos anular, ou nos pressionar. Somos adultos, sabemos o que queremos, aonde vamos e porque queremos e vamos.
    - Mas vivem numa sociedade.
    - Eu penso que a sociedade  quem vive conosco. No nos aceita assim?  lamentvel, mas no para ns. Continuaremos a viver como desejamos. No pedimos opinies, 
nem felicitaes, nem censuras. Tampouco censuramos a sociedade. Limitamo-nos a viver  nossa maneira.
    - Mas, que classe de mulher  ela? No me convence que seja decente.
    Urfe se ps de p. Mas, antes que respondesse, seu pai lhe lanou um olhar de desprezo.
    - E como anda vestido! Parece um mendigo.
    - O que conta - disse Urfe, teimoso - no  a roupa e sim os sentimentos que se leva dentro.  a parte psquica a que sente, a que sofre, a que ama. Voc vive 
impecvel, com roupas carssimas, mas nem por isso o considero uma pessoa impecvel como sua roupa.
    - Urfe!
    - Sinto, mas voc est insultando uma pessoa a quem nem conhece, e isso eu no admito.
    - Ou seja, essa mulher est acima de seus pais.
    - Pode ser amanh a me de meus filhos, e isto eu levo muito em conta.
    - A me de seus filhos, uma qualquer? 
    Urfe empalideceu, mas olhou serenamente para seu pai.
    - Est se esquecendo de que ela  a mulher que eu amo, papai. Poder lev-lo em conta, no futuro?
    O pai comeou a gritar:
    - Claro que no levarei! Ns podemos sustentar vocs. Casem-se! Vivam como pessoas decentes...!
    - Duas pessoas - disse Urfe, sem perder a calma - podem viver juntas certo tempo. Muito ou pouco. E no se conhecerem. Podem dormir na mesma cama e ser felizes, 
fisicamente. Mas h outros fatores importantes que devem ser levados em conta, para a felicidade continuar. Nem Ktia nem eu estamos seguros de nosso amor, no sabemos 
se ele durar at o fim de nossas vidas. Isso para voc no significa nada, para mim  tudo. Por outro lado; no preciso de seu dinheiro. Estudo e trabalho, e me 
dou muito bem, melhor do que quando vivia aqui. Naquela poca, eu era apenas o seu filho, algum sem personalidade prpria. Agora, sou eu mesmo, valendo-me por mim 
mesmo.
    - E o que descobriu com isso? 
    - Que posso viver s minhas custas, e que um dia, se for algum, no deverei nada a ningum.
    - Deve-nos sua prpria vida.
    - Voc me deu a minha vida porque quis, eu no a pedi. Trouxe-me ao mundo sem me consultar, portanto, a vida  minha e a viverei como achar melhor.
    - Mas est fora de toda lei humana.
    - No, papai. Fora da lei social, v l. Da humana, no. Voc sim, vive fora dela.
    - O que est dizendo?
    - Ama minha me? - exclamou Urfe, dono de si. - Vamos, ser capaz de dizer que a ama, a mim, que assisti a suas brigas, ai seus desenganos, aos choros de mame? 
E mame, ela o ama? Quantas vezes j pensaram em divrcio? Eu..., eu no quero viver como vocs, no quero viver me sentindo preso, amarrado. Eu no vivo para a 
sociedade, vivo para a mulher que amo, e embora dentro dessa sociedade, espero que essa mesma sociedade me compreenda, ou me esquea. Desculpe, papai. Mas no posso 
deix-lo ofender a pessoa que eu amo, quando nem a conhece. Vivo bem sem o seu dinheiro, levo uma existncia honesta, e tenho amigos de verdade, no apenas os de 
minha posio social ou econmica. E encontrei uma garota igual a mim, e enquanto no tivermos certeza de que nosso amor  para sempre, no nos casaremos.
    - Isso  cinismo. Voc  um sem-vergonha. 
    - E voc, um falso, um mentiroso. Um homem que no se divorciou da mulher por causa da sociedade e do prejuzo que sofreria devido ao divrcio. Vocs vivem na 
mentira e no se envergonham. Espero que no me chame mais aqui, pois no admitirei nunca que me venha com ofensas  mulher que eu amo.
    Em seguida, Urfe se retirou. Peter ainda o chamou, aos gritos, mas em vo.
    - O que houve, Peter?
    Peter olhou sua esposa fixamente. Depois, deu alguns passos e, sem responder, voltou ao seu escritrio.
    
    
   Capitulo 2
    Amanhecia.
    A orquestra se recolhia e Urfe deixou seu instrumento, cobriu-o, despediu-se dos amigos e atravessou a sala, agora vazia, da discoteca.
    - Urfe! - gritou-lhe algum do outro lado, - lembre-se de que amanh comeamos uma hora mais tarde.
    Assentiu com um movimento de cabea e se dirigiu ao armrio de roupa. No balco, Ktia acabava de entregar a um cliente o ltimo abrigo. Ao v-lo, apressou-se 
em ir ao seu encontro.
    - Amanh - disse Urfe, tomando-a pelo brao - comearei uma hora mais tarde. Melhor. Preciso mesmo estudar.
    Saram ambos  rua. Fazia um bocado de frio.
    - Devamos arranjar um trabalho mais perto de casa - comentou Ktia. - Isto  muito cansativo.
    - Voc no precisa trabalhar no guarda-volume - retrucou Urfe, abraando-a. - Suas aulas pela manh j lhe tomam uma parte de seu tempo. No sei porque trabalhar 
tambm  noite.
    - A vida no  fcil - riu Ktia, feliz. - E gosto de ajud-lo no que me  possvel.
    - Que tal irmos andando? - props Urfe. - Estaremos em casa em meia hora e mais aquecidos pelo exerccio. Enquanto isso, lhe conto sobre a visita a meus pais.
    Ambos sorriram ao falar naquilo.
    A famlia podia no aceitar sua forma de viver, mas ambos estavam bem satisfeitos. Sabiam o que queriam, como o queriam, como o sentiam e como o viviam e desejavam 
viv-lo. O que os outros pensassem no importava.
    - Sabe que voc  linda? - disse ele, de repente.
    Ktia tornou a sorrir suavemente.
    - Lindo  o nosso amor. Claro, temos problemas - murmurou, aconchegando-se mais a ele. - E no so pequenos. Mas podem ser resolvidos, graas ao que sentimos 
um pelo outro. 
    Comearam a andar. quela hora solitria da madrugada, seus passos ecoavam pelo pavimento mido.
    - Brigamos. Eu no queria chegar a essa situao - dizia Urfe, enlaando Ktia pela cintura. - Sabe, at que fui uma criana feliz, at os doze anos. Talvez 
porque no pensasse em nada, no tivesse preocupaes. Estudava e brincava, mal me apercebendo do que ocorria  minha volta. Depois,  medida que fui ficando homem, 
comecei a perceber as coisas. Cenas terrveis entre meus pais. E descobri que os dois sempre viveram uma vida falsa.
    - Esquea isso.
    - Voc no viveu isso... Perdeu seus pais quando criana. No sabe o que  ver os pais sorrindo diante dos amigos e esperar, com horror, a hora em que as visitas 
saem e comeam as brigas e acusaes, ou mesmo o silncio condenvel. Em minha adolescncia, fui percebendo tudo isso e mais detalhes da vida prtica. Por exemplo, 
mame herdou um grande negcio de postos de gasolina. Possui vrios, no Estado de Nova Iorque. Papai se casou com ela. Apaixonado? Talvez. Mas, o fato  que se houve 
amor, esse foi se acabando. E com ele, o respeito mtuo, a admirao, o carinho. Cada um passando a viver para o seu lado. Nunca unidos, entende? 
    Entendia.
    - E ele o chamou para falar de ns - disse ela, sem perguntar.
    - Sim. Queria me convencer a viver ao seu modo. Foi quando eu disse a ele o que pensava desse seu modo falso de vida.
    Dobraram uma esquina. Depois, mais outra e penetraram numa rua estreita, cheia de prdios simples, modestos.
    Ao chegarem a um determinado portal, ambos se fitaram. A tnue luz pde iluminar seus olhos. Os dele, negros, os dela azuis, grandes, luminosos.
    - O essencial - disse Urfe, empurrando-a suavemente para dentro - somos ns mesmos; os outros no precisam de ns.
    Ela acordava sempre cedo, mesmo dormindo tarde.
    O apartamento era pequeno. Dois quartos, uma cozinha pequena, uma sala e o vestbulo. Havia detalhes muito femininos, bem prprios de Ktia. Mas tambm se notava 
a presena masculina, a personalidade de Urfe.
    A vida deles era normal, com muito amor, muita dedicao. Em suas conversas jamais havia censuras para ningum, por isso no permitiam que ningum se metesse 
entre eles, pelo menos na sua frente. Eles respeitavam a vida dos outros seres humanos, e exigiam respeito para a sua.
    Aquela manh, como sempre, ao ouvir o despertador, Ktia pulou da cama e travou o boto, para que Urfe dormisse mais um pouco.
    Ela dava aulas pela manh, e com o que recebia, ajudava nas despesas de casa.  tarde, ambos iam  faculdade. Ela estava com vinte e dois anos e cursava a quarta 
srie de Filosofia. Urfe estava com vinte e quatro e terminava o mesmo curso.
    Primeiro, foram simples colegas, depois amigos afetuosos e mais tarde, descobriram que se amavam.
    Era um entardecer como tantos outros.
    Ela vivia com um irmo e dado o gnio de Jerry, procurava no irrit-lo, de modo que se retirava cedo.
    Urfe vivia com os pais. Era um rapaz calando, de gnio calmo. Tanto ele, como Ktia procuravam no se meter em greves estudantis, pois eram de opinio que no 
iam mudar o mundo e que, portanto, o melhor a fazer era estudarem, dando cada um de si uma contribuio para melhorar este mesmo mundo. No se envolviam com poltica 
nem com problemas fora de seus estudos.
    Por sua vez, Ktia andava farta de viver com o irmo e a cunhada Mildred, dependendo sempre deles. Sua meta era terminar o curso e arranjar um emprego, para 
se valer sozinha.
    Aquele entardecer ao qual nos referimos, houve uma confuso entre os estudantes, e os professores estavam como refns dos mesmos. Urfe saiu por uma porta e Ktia 
pela outra.
    - Levo-a em minha moto - disse Urfe. 
    Ela aceitou.
    Enquanto se movia no quarto, pensava naquela cena, a mais definitiva e concreta de sua vida.
    Via Urfe dormindo serenamente. Tinha um rosto agradvel, a barba cerrada, os cabelos fartos, no muito compridos, e um sorriso simptico. Sorriu, enquanto se 
trocava.
    Naquela famosa tarde, pela primeira vez, ela e Urfe se deram conta de que se amavam. Foi repentino. Ela estava na garupa da moto, quando Urfe parou  beira de 
uma estrada e a convidou para sentar com ele na relva.
    - No gosto dessas confuses - comentou ele. - Talvez voc me ache covarde.
    - Ento, deve pensar o mesmo de mim, porque, como voc, escapei do barulho.
    - Est a, Ktia?
    Sofreou seus pensamentos automaticamente.
    Agradava-lhe pensar e o fazia muitas vezes. Era como voltar a viver aqueles momentos deliciosos. Mas a voz de Urfe despertou sua mente do passado.
    Urfe estava meio levantado no leito. Sem camisa, com o trax descoberto, forte, com aqueles olhos negros, agora sem melancolia, fitava-a com carinho.
    - Pensei que j tinha ido...
    Ela acercou-se.
    Suave, sem toques felinos, sem ares de conquista. Com aquela naturalidade que envolvia seu relacionamento com ele. Eram como eram. Viviam como queriam viver. 
Amavam-se com a mais absoluta simplicidade.
    
    
   Captulo 3
    Sentou-se na borda do leito e passou uma das mos no rosto masculino. Havia uma grande ternura em seu gesto. Se algum pudesse v-los naqueles instantes, teria 
se emocionado; ver e apreciar aquela sinceridade to firme, to espontnea.
    Os dedos masculinos seguravam aquela mo, apertando-a contra seu rosto.
    - Voc...  boa demais para mim.
    - Por que diz isso?
    - Levanta-se com o maior cuidado para no me acordar e no entanto se deitou  mesma hora. Por que  assim?
    - Porque tenho um compromisso pela manh e voc precisa estudar, j que  noite trabalha muito.
    - Ktia - disse, tomando-a nos braos e olhando-a fixamente. - Tudo isso  verdadeiro, ou somos dois farsantes?
    - Eu tenho certeza dos meus sentimentos, querido, e conhecendo-o como julgo conhec-lo, sei que tem certeza do que sente por mim. Isto no  um passatempo. Diga 
o que digam seus pais, se a eles se refere, desconhecem totalmente nosso verdadeiro modo de amar, mas ns no podemos ter dvidas a esse respeito.
    - Eu acredito em tudo o que diz, Ktia. Mas, responda-me e seja mais uma vez franca, deseja algo mais concreto de mim?
    Sabia a que ele se referia.
    E no o queria. De momento, no.
    Um dia, surgiria tal necessidade em ambos. Os dois a compartilhariam ou, pelo contrrio, se aquele sentimento no existisse, diriam adeus um ao outro, sem mgoa 
nem rancores.
    - No - disse com firmeza. - No creio que isso melhore as coisas. Acaso eu lhe peo algo?
    - Mas no seu ntimo no existe essa dvida? 
    - Que dvida?
    - A de que um dia nos digamos adeus.
    - Se nos amamos de verdade e nos compreendemos, caso um dia necessitemos, pelo que for, oficializar nosso relacionamento, tenho certeza que ambos o faremos, 
mas com sinceridade, com toda convico. Mas, se chegarmos ao fim desse sentimento, se descobrirmos que foi um engano, ento nos diremos adeus, sem mgoa e sem ressentimento. 
Era isso que queria saber de mim?
    - Era.
    - Pois j sabe. E agora, por favor, no deixe que a visita a seus pais perturbe a nossa paz. Meu irmo Jerry tambm me persegue, me ameaa, quer que eu volte 
a morar com eles. Mas eu sou maior de idade e j escolhi o meu caminho.
    Jogou a cabea um pouco para trs, por causa de sua posio incmoda. Foi quando Urfe se inclinou para ela. Fitava-a com ansiedade.
    Era ardente, como Ktia bem sabia.
    Partilhava de seu ardor com a mesma intensidade, mas havia algo mais entre eles, alm dessa atrao fsica to forte. No podiam basear aquela unio apenas no 
fsico. Havia um sentimento profundo e era por este que lutavam.
    Para que num dado instante se sentissem apenas um homem e uma mulher, havia outros mil instantes em que se sentiam e se sabiam amigos e companheiros com que 
compartilhavam a mesma vida, os mesmos ideais, as mesmas preferncias.
    Procurou sua boca.
    Conhecia sua forma de beijar, sabia quando ele a desejava, quando a necessitava mais que tudo na vida.
    Aquele era um desses momentos.
    Tinha pressa. Dava aulas a seis alunas pela manh e tinha o tempo justo para vestir-se e sair, mas conhecendo Urfe sabia que naquele instante a necessitava. 
Fsica e espiritualmente.
    Sentiu os dedos de Urfe tocarem os seus.
    - Quando a vejo to sria, em sua funo de professora, fico at inibido.
    Ktia enlaou-lhe o pescoo, dcil, apaixonada.
    - Nesse momento, sou apenas a mulher que o ama.
    - Minha mulher!
    Era como se beijasse cada slaba. Parecia impossvel que, talvez minutos depois, cada um se fosse para seu trabalho. Ele, para estudar, ela para dar aulas e 
 tarde, se encontrarem os dois na faculdade.
    Mas, naquele momento, ficava tudo adiado.
    No soube quando se viu no banho. Ouvia o zumbido do barbeador eltrico e o cantarolar de Urfe.
    - S estou aparando em volta - dizia ele, em voz alta. - No pretendo raspar a barba. Sei l, parece que me d certa personalidade.
    - A barba, grande ou no, no interessa. O que me importa  voc.
    - A que horas vamos nos encontrar para o almoo?
    - No terei tempo de vir preparar o almoo, portanto, nos veremos no refeitrio da faculdade. Fica mais barato, comer l mesmo...
    - Certo.
    Os dois estavam agora vestidos para sair.
    - Ktia - disse Urfe, gravemente, - voc  a garota mais maravilhosa do mundo.
    - No me diga. Eu sei. Sei o que lhe pareo, o que sente, o que eu sinto. E isso basta.
    - Basta?
    - Que ambos saibamos. O resto, as palavras... so como sopros do vento, Urfe.
    Acariciou-lhe o rosto.
    - Adoro voc, Ktia. Adoro viver a seu lado. Sabe que no me sinto bem quando estamos separados, mesmo que por poucas horas? Creio que no saberia mais passar 
sem voc.
    Ia sentada no canto do banco no nibus em direo as suas aulas dirias.
    Mas seus pensamentos no estavam ali, entre aquelas pessoas  sua volta. Estava naquele entardecer, quando se dera conta de que ela e Urfe eram feitos um para 
o outro.
    Estavam sentados na relva,  beira da estrada. Ele ento murmurava:
    - Eu no sou feliz, Ktia. E voc?
    - Feliz? Existe felicidade?
    - No concreta. Talvez imprecisa, sim. E de vez em quando  sentida. Eu nunca a sinto. Vivo num lar cmodo, onde ningum se conhece.
    - Ningum?
    - Meus pais so como dois estranhos.
    - Por que no se divorciam? - dissera, despreocupada. - Afinal, se no se do bem juntos, por que continuar?
    Urfe comeara ento a falar-lhe sobre sua vida, seus pais, seu lar. Coisa que nunca acontecera antes, mas que ela sempre pressentira, talvez pela melancolia 
que lia naqueles olhos negros.
    - Meus pais no se divorciam, ainda que se odeiem.  isso que no entendo. Sabe - acrescentou, vendo a surpresa nos olhos femininos, - eu era uma criana feliz, 
despreocupada, no percebia nada do que havia  minha volta. Coisas que aceitava como normais, mais tarde me pareceram monstruosas. E me pergunto at hoje como as 
pessoas podem viver toda uma vida na mentira, s por causa da posio social.
    Ao falar, apertara sem o sentir os dedos femininos.
    - Ktia - dissera, de repente - eu gosto de voc.
    - Eu tambm gosto de voc.
    - No, Ktia. De outra maneira. No sente o mesmo?
    Sim, ela comeara a sentir o que lhe ocorria.
    - De outra maneira, sim. Com amor - rira nervosamente. - Vai me chamar de bobo.
    - Por... me dizer isso?
    - Por me expressar assim. Como costuma ser uma declarao de amor? J ouviu alguma, Ktia?
    - Sim.
    - Diferente da minha?
    - Todas so parecidas, embora sejam ditas com palavras diferentes. Tudo quer dizer o mesmo, Urfe.
    - Eu a amo.  como se diz?
    E, rira nervoso, ao mesmo tempo que a atraa para si.
    Jamais haviam se beijado. Nem mesmo dado as mos. Conversavam sobre mil assuntos, isto sim, mas s.
    Mas, aquele entardecer foi diferente.
    E, quando ela escorregara para trs, Urfe debruara-se sobre seu corpo, procurando seus lbios.
    Beijaram-se longamente.
    Ambos sentiram ento o quanto necessitavam um do outro.
    
    
   Captulo 4
    O nibus parou e Ktia deixou de pensar, bruscamente.
    Sacudiu a cabea. Era uma jovem esbelta, bonita. Em seus imensos olhos azuis, no havia mais cansao agora. Fora substitudo por um brilho que significava a 
felicidade que alcanara.
    Loura, o cabelo sedoso, suave. A tez de um tom bronzeado, fazia um contraste delicioso com o seu tipo louro.
    Vestia uma pantalona cor de cereja, uma blusa branca e um colete preto; na cabea, um gorrinho feito por ela mesma, em tric. Uma intelectual que vivia  sua 
maneira, sem se importar com o que os outros dissessem.
    No havia apenas atrao fsica, em sua unio com Urfe. Havia uma forte dose de compreenso, de complementao moral e espiritual.
    No sabia qual seria o seu futuro, portanto, vivia o presente intensamente.
    Deu as aulas. Tambm era honesta com o seu trabalho. Enquanto dava aulas, se esquecia de Urfe e de si mesma. S contava, naqueles momentos, o dever bem cumprido.
    Foi ao sair da ltima casa e descer correndo as escadas, seguindo para a parada do nibus, que voltou ao passado. Era gostoso voltar a ele, analis-lo, tornar 
a viv-lo, sentindo como se comeasse tudo de novo.
    A princpio, o que pesara mesmo fora a atrao que sentiam um pelo outro. Quanto mais se davam, mais se queriam. Era uma oferenda contnua, esquecidos de tudo 
que no fosse estarem um nos braos do outro.
    No pensaram um s instante em suas famlias. S eles existiam.
    Fora num dia qualquer. Em outro entardecer. Muitos haviam se passado, depois daquele primeiro.
    Ele dissera:
    - Detesto minha casa.
    - E eu a minha. Por causa de meu irmo. 
    - Ele a tiraniza?
    - Ele quer me dominar, e isso me deixa louca, afinal sou maior de idade e nunca fiz nada de errado. Aceitaria sua autoridade, se fosse um homem consciente, digno, 
cumpridor de seus deveres. Mas meu irmo no passa de um farsante mentiroso.
    - Tambm ele?
    -  cheio de preconceitos, e no entanto no vale nada.
    - Ktia! - Um silncio. Depois: - Por que no moramos juntos?
    Fora um impacto. Mas, depois, comeara a refletir.
    - Ser um teste - dissera Urfe lentamente. - No quero mago-la. Mas no sei se a amo o bastante, se vou am-la sempre. E nem voc pode sab-lo, em relao a 
mim.
    - Tem razo.
    - At agora, s temos estudado. Voc, s custas de seu irmo, eu dos meus pais. Gostaria de ser independente, ser eu mesmo. At agora, tenho sido o prolongamento 
de uma mentira matrimonial. O que acha do casamento?
    - No acho nada.
    - Estaremos errados, ao margin-lo?
    - E no estaramos, se depois nos divorcissemos?
    - Eu penso que sim.
    - Um papel assinado no assegura a felicidade por toda uma vida, no acha?
    - Acho.
    - Devemos nos conhecer intimamente, Ktia - ele dissera, serenamente, com a maior naturalidade. - No  fundamental, mas  importantssimo que nos entendamos 
desde o fundo de nossos sentimentos. Se forem superficiais, morrero por si ss e ento de nada nos teria servido casar-nos, a menos que nos exponhamos a uma mentira 
como a de meus pais ou de seu irmo. E isso, eu no quero. O que acha?
    - Se vamos viver juntos e nos valer por ns mesmos, teremos que arranjar um emprego.
    - Isso no  to fcil, mas ns conseguiremos. Quando se quer trabalhar de verdade, no  impossvel encontrar alguma coisa decente.
    E comearam a procurar emprego naquele mesmo dia.
    Urfe, que conhecia msica, foi trabalhar numa orquestra de um amigo seu. Ktia passou a dar aulas, e  noite, trabalhava tomando conta dos agasalhos e bolsas 
na discoteca. 
    Sam e Tom passaram a seu lado.
    - Espera Ktia, no? - perguntou Tom.
    - Bem, sim...
    No completou: "Espero-a e penso nela".
    Como Ktia no nibus, ele, no refeitrio da faculdade, pensava tambm naquele passado to recente.
    Um dia, Maud comentara:
    - Voc e Ktia esto saindo juntos, no ? 
    Ele era sempre muito franco, com todo o mundo.
    - Sim. Estamos namorando firme.
    - Se quiser o meu apartamento, para o que for... Eu vou a Boston.
    Ocorreu-lhe conhecer melhor Ktia. Conhec-la totalmente, sem restries.
    - Deixe a chave comigo.
    Maud, uma antiga amiga e companheira de classe, deu-lhe a chave e viajou.
    Naquele mesmo dia, falara com Ktia, quando ambos estavam andando de moto.
    - Maud me deixou a chave de seu apartamento. Ela foi a Boston. Quer ir at l?
    - Urfe... tem certeza?
    Tinham que gritar, para se fazerem ouvir. A velocidade da moto lhes levava a voz com o vento.
    - Temos nossos empregos. Podemos nos manter.  claro que teremos de lutar muito. Mas eu estou disposto a comear, quando voc quiser.
    - Est bem, Urfe. 
    Foram. Ali se conheceram.
    Foi uma experincia deliciosa. Urfe a encarava como uma experincia que ambos no esqueceriam nunca.
    Fora a primeira vez em que chegara tarde em casa. Dera de cara com o pai. Este nunca estava em casa, nem mesmo sua me, mas naquela noite o esperava, furioso.
    - De onde vem, a esta hora?
    Ele pensou que seu pai devia ter-lhe dado o exemplo. Mas no o de homem elegante, freqentador de sociedade.
    - Vou morar sozinho - dissera a seu pai. Fora a seca resposta. Seu pai erguera a mo. Pretendia bater-lhe, mas ele se esquivara, dizendo:
    - Acho bom conversarmos de homem para homem, papai. No sou nenhum moleque.
    - Que maneira  essa de me falar?
    - Sou um homem, papai. E tomei uma deciso... Amanh mesmo irei embora desta casa. 
    - Ficou doido? De que vai viver? Quem vai pagar seus estudos?
    - Eu mesmo. Quanto a minha vida particular no se preocupe.
    O pai parecera acalmar-se. Sabia que o filho era maior e que no podia impedi-lo de ir viver  prpria custa.
    - Vai morar sozinho? 
    Urfe detestava a mentira.
    - No,  claro, mas no pretendo dar explicaes de como, onde e com quem vou morar.
    - Mas eu sou seu pai e tenho o direito... 
    Direito? A qu?
    S porque havia contribudo para traz-lo ao mundo, porque comia em sua casa, porque lhe pagava os estudos? O que mais recebera de seu pai? Nem mesmo um bom 
exemplo. Jamais dedicara a ele algumas horas de seu dia. Nunca saam juntos, ou conversavam como bons amigos.
    O que devia a seu pai? Sua existncia, apenas isso.
    - Sinto muito que voc tente me impor direitos que eu no lhe reconheo, papai. Estou cansado - acrescentou secamente - e tenho sono. E amanh no penso perder 
minha aula.
    Seu pai ainda tentou demov-lo, ret-lo, mas ele era como era e no pensava em deixar-se dominar. E depois, queria e tinha que pensar em Ktia. Em como a havia 
conhecido, na pessoa deliciosa que ela era, na ternura de seu amor, em sua sensibilidade... Na continuidade de suas relaes, e em como ambos iam enfoc-las.
    No voltara em casa durante muitos dias. Certa manh, sua me o abordara.
    - Urfe - ela dissera com ansiedade, - creio que voc no est vivendo decentemente. 
    Seus pais estavam equivocados. Eles sim,  que viviam sem dignidade. Ele e Ktia haviam alugado um pequeno apartamento, junto ao de Maud e de alguns amigos tambm 
estudantes. Estudavam, trabalhavam e se amavam intensamente. Isso era o que contava. No havia em sua unio apenas desejo fsico. Claro que este existia, sim. Se 
no, como o seu amor ia sobreviver? Mas havia algo mais profundo. Um anseio idntico, uma maneira de viver partilhada...
    - Um dia me casarei, mame - dissera ento.
    E depois, falara de outra coisa. Reconhecera naquele dia o tremendo egosmo de sua me. Ela preferia marginalizar o problema do que enfrent-lo.
    Havia uma ternura comovedora no gesto de Urfe, ao apertar os dedos femininos por cima da mesa.
    - O nibus e o trfego me atrasaram - e, beijando-o no rosto, acrescentou: - Que tal a prova?
    - Acho que fui bem. E voc, com suas aulas?
    - Felizmente, uma de minhas alunas faltou e eu pude aproveitar o tempo para estudar. Esta tarde, poderei me dedicar um pouco mais  casa.
    - No trabalha demais?
    - E voc? 
    Riram ambos.
    Entre eles no existia a expresso futuro em comum. Se a compreenso perdurasse, se a ansiedade mtua persistisse, um dia, quando ambos resolvessem, se casariam. 
Mas nenhum dos dois tocava no assunto. Amavam-se apenas sem maiores preocupaes.
    Iria aquilo em frente? Tinha um futuro? timo. Mas ainda havia muita coisa no ar.
    Gregory passou por eles, dizendo:
    - Ktia, voc cada dia mais bonita - e olhando para o companheiro desta: - Ol, Urfe.
    - Ol - respondeu Urfe.
    - Posso ir estudar com voc esta noite?
    - Claro. Espero-o em casa.
    - Prefiro estudar com voc do que com Tom, que  muito desinteressado. Espero - olhou para Ktia, - que voc prepare um bom ch.
    - Ela o far.
    Gregory saiu. Era alto e delgado.
    Vestia-se como os demais estudantes que freqentavam o refeitrio da faculdade, por ser mais barato.
    - Amanh haver uma reunio - disse Ktia.
    - Eu no vou participar. No quero confuses. Sou apoltico, graas a Deus. Tenho mais em que pensar, especialmente meus estudos.
    Foi mais tarde, quando lhes serviam a comida, que Urfe disse:
    - Greg est sempre indo a nossa casa e pedindo um ch. Ser mesmo pelo ch, ou por voc?
    Ktia comeou a rir.
    Tinha uns dentes lindos, e umas, covinhas deliciosas. Sempre que Urfe a via sorrindo assim, ficava louco para tom-la nos braos e beij-la muito.
    - Ser que voc  ciumento?
    - No  isso, Ktia.
    - Ento, o que ?
    - Uma pessoa  ciumenta, quando desconfia. Eu no desconfio de voc. Mas no gosto que Greg pense que tem direito de olh-la.
    - Ele no o tem.
    - Tenho aula s cinco. Estarei em casa s sete. Estudarei com Greg, caso ele aparea, at s dez. Comerei qualquer coisa e irei para a discoteca.
    - No trabalha demais? 
    Olhou-a intensamente.
    - E voc? Est de braos cruzados? Ns dois estudamos e trabalhamos. Isso d mais segurana, uma segurana que no se pode comparar a nada mais. Sabe, Ktia? 
Sinto-me completo, pleno como se a felicidade que sinto preenchesse meu ntimo e, sem me dar conta, a transmitisse a todo o mundo, e mais a voc do que a ningum.
    Finalmente, terminaram de comer. Separaram-se ali.
    - Bem, no tenha cimes - disse ela, baixo. - No seja bobinho.
    - Nunca esteve apaixonada antes de me conhecer?
    Ergueu a mo e lhe acariciou o rosto. Depois, ali mesmo, no ptio da faculdade, ergueu-se nas pontas dos ps. Urfe no era nenhum tipo fora do comum, mas era 
bem mais alto que ela.
    Ela o beijou levemente nos lbios.
    - Um dia - disse ele, de repente - teremos um filho.
    Partiu, deixando-o ali. Se ele pudesse, teria ido atrs dela, para se refugiarem juntos em seu lar acolhedor.
    Naquele momento, seria capaz de jurar que se casaria com ela imediatamente, tal a certeza de seu amor.
    Viviam no outro lado da cidade, num bairro comercial.
    Um dia, quando ela e Urfe terminassem os estudos, suas vidas mudariam. Procurariam viver melhor, formar um lar de verdade. Urfe nunca falava disso, mas... no 
era esse o fim? 
    Perdeu-se no metr e se sentou num canto.
    Recordou outros momentos. Quando comeara a pensar em deixar a casa de seu irmo.
    Jerry era temperamental. Impulsionado pela raiva, podia at dar-lhe uma surra. Sabia que no tinha esse direito, mas preferia no desafi-lo.
    Por isso, dissera a Mildred:
    - Vou-me embora de sua casa. 
    Sua cunhada a fitara, espantada.
    - O que disse?
    - Vou morar com Urfe.
    - E quem  Urfe?
    - Meu namorado.
    - Mas...
    - J levei quase todas as minhas coisas - informou.
    Ela no era to valente quanto Urfe. Assim, procurara a parte mais fraca da famlia, para contar novidade. Mildred era boazinha, mas muito sem personalidade.
    - Ktia - dissera Mildred a chorar. - Sabe como seu irmo vai ficar?
    - No tema. Afinal, ele vai se livrar de uma carga.
    - E voc vai deixar os estudos?
    - No. Continuarei, s que s minhas prprias custas. No pretendo mais depender de meu irmo.
    - E de que vai viver?
    - Do meu trabalho,  claro.
    - E... voc vai se casar?
    - No - retrucou com certa hesitao. 
    - Ktia!
    - Sinto muito, Mildred.
    - Seu irmo no vai consentir. 
    Replicara com sbita energia:
    - Sou maior de idade. Ele no poder me impedir de fazer o que quero.
    - Esquece-se do gnio forte de seu irmo.
    - Voc o tolera porque quer. Eu no o tolero, de jeito nenhum.
    - Ktia, oua meu conselho...
    - Por favor, conselhos no. S se eu os pedir.
    - Tem certeza do que decidiu?
    - Pensei muito, antes de resolver.
    - Por amor, ou por qu, Ktia?
    - Por tudo.  o complemento de minha vida.
    - Mas... assim...
    No quisera ouvir as lamentaes de Mildred.
    Seu irmo fora procur-la, naquele mesmo dia. Felizmente, Urfe no estava. Tiveram uma discusso horrvel, mas Jerry no conseguiu demov-la.
    Chamou-a de todo jeito, mas ela encontrara foras para se negar, sem dizer-lhe o que pensava a seu respeito.
    O trem do metr chegou a seu destino e Ktia deixou de pensar. Por que tinha ela de pensar no passado?
    E quem no leva vida sacrificada?
    Chegou em casa e foi trabalhar. A roupa de Urfe precisava ser passada. Uma cala tinha que ser costurada e lavada.
    Tambm teria que estudar, mas o faria enquanto Urfe e Greg estudassem na sala. Iria para o quarto e poria suas matrias em dia.
    Ia comear a passar a ferro, quando a campainha da porta soou.
    Quem seria? Greg? Era amigo de Urfe, mas ela sabia que, se pudesse, o atraioaria.
    No contava essas coisas a Urfe. Para qu?
    Respirou fundo e foi abrir a porta. Ficou petrificada. Ali estava seu irmo Jerry.
    
    
   Captulo 5
    No rosto fino de seu irmo havia uma expresso absolutamente serena. Isto era um pssimo sinal.
    Ficara rf muito pequena e Jerry a mantivera a seu cargo. Agradecia-lhe enquanto ele era solteiro, nada tivera a censurar-lhe. Fora depois, quando Jerry anunciara 
seu casamento, que ela ficara um tanto apreensiva.
    Logo Mildred chegara em casa e, com o correr do tempo, pde observar que era uma boa garota. Dcil, fcil de levar, introvertida, amvel... Mas incapaz de controlar 
um temperamento to forte como o de Jerry. 
    Aos poucos, ela fora notando que Jerry no era fiel  sua mulher. No fundo, fora deixando de admirar Jerry e comeara a estimar Mildred.
    Jerry era homem de negcios e viajava muito. Jamais levara junto sua mulher. Ktia se perguntava porque ele e Mildred no se divorciavam. Mas,  claro, Jerry 
era cheio de preconceitos e vivia de aparncias.
    Por isso, por saber que o casamento de Jerry tinha uma base falsa e frgil, no suportava que seu irmo se atrevesse a censurar ou condenar a vida que ela vivia.
    - Ol, Ktia! - saudou Jerry, entrando. No o deteve. No o temia.
    Fazia tempo, desde que se sentia segura junto a Urfe, que as opinies ou a irritao de Jerry pouco lhe incomodavam.
    - Est sozinha?
    Era uma pergunta tola. Jerry no era nenhum valente. E sabia que aquela hora ela estaria sozinha. Alis, Jerry e Urfe nem se conheciam.
    O que pretenderia ele? Convenc-la?
    Porque, lev-la  fora, ele no podia. E, por outro lado, o rosto de Jerry naquele momento era um lago plcido e Ktia, que bem o conhecia, sabia que isso era 
bem pior do que sua indignao.
    - Estou sozinha, sim - disse.
    Jerry olhava  sua volta, com ar crtico.
    - Que casa vulgar - comentou. - E eu que a criei com tanto mimo - voltou-se para olhar sua irm. - Ktia, isto no  ambiente para voc. Sua educao primorosa, 
sua posio na sociedade, pediam coisa melhor para voc.
    - H coisas que voc no entende, Jerry. Por exemplo, minha vida e a sua.
    - O que quer dizer?
    - Por que veio? - foi a resposta de Ktia. - O que deseja?
    - Convenc-la a voltar ao bom caminho. Ontem, fiquei sabendo que voc trabalha  noite no guarda-roupa de uma discoteca.
    - E o que tem isso?
    Em vez de responder, Jerry se sentou numa poltrona e fitou a irm.
    - Mal vestida - disse, como enumerando -...abatida. Descuidada, voc, que sempre foi uma garota impecvel. No entendo, Ktia. No creio que esse amor seja to 
profundo. Como pode deixar uma vida confortvel por outra to inferior?
    -  questo de pontos de vista, Jerry. Cada um vive como quer, e eu gosto de como estou vivendo.
    - Sem se casar.
    Ktia sorriu, apenas. Era realmente encantadora.
    E Jerry sabia que ela no estava descuidada, nem abatida.
    - Queria - disse Jerry, tranqilo - falar seriamente com voc. De voc e do homem com quem vive.  meu dever saber que classe de homem ele ... Sim, no me olhe 
com esse ar de espanto! Sempre me interessei por voc e no concordo com a vida que est levando.
    Ktia no queria briga.
    Se pudesse, manteria aquela conversa em tom sereno e se livraria o quanto antes de Jerry, para que Urfe no o encontrasse, quando chegasse.
    - Quer tomar algo? - perguntou afavelmente.
    - Isto tudo  to vulgar - comentou Jerry, por resposta. - Esta casa, voc, com este avental. Voc  uma intelectual, e no entanto, vendo-a neste instante, tem-se 
a impresso de ser uma vulgar dona-de-casa com mil problemas prosaicos.
    - Salvar um amor possuindo todas as comodidades - retrucou Ktia calmamente - me parece fcil. O difcil  salv-lo quando tudo so problemas. Tanto eu como 
Urfe lutamos duramente para defender o nosso lar. E no precisamos de uma certido firmada ante testemunhas. No nos baseamos numa atrao fsica, apenas. Entre 
ns existe compreenso, comunho de idias, paz espiritual e fsica, entendimento... Gostaria de saber se voc tem tudo isso.
    - Est sendo cnica, Ktia, e isso  de doer.
    - Por que veio? - perguntou Ktia, cansando-se. - Para me censurar, para me levar de volta?
    Jerry se levantou e deu algumas voltas pela sala.
    Vendo que ele no respondia, ela acrescentou:
    - Veja como so as coisas, Jerry. Eu no poderia viver como voc e Mildred, e no entanto, so casados. Eu no aceitaria que Urfe me dissesse mentiras; no seria 
dcil como a sua esposa, que sabe que o marido sai a cada semana com uma mulher e no reclama.
    Jerry ficou lvido. Parou de caminhar e fitou a irm.
    - Voc no  ningum para se meter na minha vida.
    - Tem razo. Mas eu no o procurei, voc  quem veio se intrometer onde no era chamado. Vivo como quero e no preciso dar satisfaes a ningum. Se no me deixar 
em paz, vou botar para fora tudo o que sei sobre sua vida falsa.
    - Voc  muito criana para entender a vida de uma pessoa adulta.
    - Sou uma pessoa consciente e sei o que quero. Agora, me pergunto se voc tambm sabe. De que vale uma certido de casamento, se voc no a respeita? Acha que 
isso me uniria mais a Urfe e ele a mim? Estamos passando por uma fase de transio. No sabemos aonde iremos parar, mas de momento, trabalhamos, precisamos um do 
outro e vamos vivendo; ambos sabemos mais da vida que voc e Mildred, ou mesmo os pais de Urfe. Voc no se separa de sua mulher, embora no a ame. De que serve 
viver nessa falsidade?
    - Ktia...
    - Voc veio aqui, agora vai me ouvir. No suporto a vida que voc e sua mulher levam. Prefiro as minhas verdades. Na minha casa modesta, entre meus livros e 
meu trabalho. Quando eu e Urfe terminarmos nossos estudos, quando no houver qualquer dvida quanto  fora de nosso amor, a sim, veremos o que decidimos, mas no 
suportaremos presses de nossas famlias.
    Jerry compreendeu que sua presena era demais ali.
    - Vejo que no adianta querer alert-la, esclarec-la. A educao que lhe dei no serviu de nada. Os bons princpios em que foi criada no iro det-la.
    - No tive bons princpios, Jerry. Vivo muito acima deles. E vivo melhor do que voc me ensinou, ou deu exemplo. No saberia morar numa casa com uma pessoa, 
dormir com ela, comer  mesa com ela e detest-la. Isso  o que ocorre entre voc e Mildred. Ela o tolera, com seus vcios e mentiras. Isso tudo sempre me chocou, 
mas eu no tinha para onde ir e fui ficando em sua casa. Vocs s se importam com as aparncias. Vivem um inferno, mas no se separam, por causa da sociedade, que 
comentaria. E ainda tem coragem de vir me chamar de cnica. Pois, eu o considero o mais cnico dos maridos. E no preciso ser casada, para ser honesta. Eu o sou. 
Sou honesta, embora viva fora de seus padres morais.
    - Quer se calar?
    - Sim, quando voc se for e se esquecer do caminho de minha casa. Sou uma mulher feita e sei o que quero e como o quero, e no suporto que seja voc, justamente 
voc, quem venha me censurar. No posso consenti-lo. Esquea-me de uma vez.
    Jerry segurou a maaneta da porta com fora. Como se quisesse esmag-la.
    - Nunca pensei que minha prpria irm chegasse a tais extremos.
    - Voc no est magoado pelo meu modo de viver, Jerry - disse Ktia, um tanto sarcstica. - Est magoado porque seus amigos comeam a saber que estou morando 
com um homem.
    - Tomara que voc nunca precise de mim, Ktia - disse Jerry gritando. - No vou mais reconhec-la como irm. Nunca mais, ouviu bem?
    - Aprendi a me defender sozinha, Jerry - riu Ktia, desdenhosa. - No me doem os dedos nem a lngua. Tenho preparo suficiente para olhar o futuro com coragem. 
E se um dia Urfe e eu nos separarmos, no serei eu quem v procurar voc para que me ajude. H muitas formas de se ganhar a vida. Por outro lado, pretendo terminar 
meu curso e ainda fazer ps-graduao. Como v, sonho alto.
    O irmo se virou para fit-la.
    Gostaria de dizer muitas coisas, mas se dava conta de que Ktia, dentro de seu silncio, enquanto vivera em sua casa, notara cada desavena, cada frase ofensiva, 
cada infidelidade...
    Por isso saiu e fechou a porta com um golpe, deixando Ktia ali parada, trmula e com vontade de chorar.
    E no por ela; por todos os demais...
   Capitulo 6
    Ainda no havia se recuperado da visita de Jerry quando a campainha tornou a soar.
    Ktia ia de um lado para o outro recolhendo coisas, com o rosto crispado, e um brilho estranho no olhar. Estava prestes a desatar em soluos.
    Jerry de novo?
    Conhecia-o. Sabia que, sob sua aparente valentia, era um covarde. E lhe doa que Jerry fosse assim, ou que tivesse uma esposa que no o compreendia, ou que no 
se preocupava nunca em ret-lo.
    Tirou o avental da cintura. Estava com uma cala de brim e uma batinha amarela, e o cabelo preso na nuca. Foi assim que abriu a porta.
    - Ol, Ktia! - exclamou Greg, com seu sorriso falso. - Urfe ainda no veio?
    Ktia sabia que Greg no ignorava que Urfe s chegaria dali a meia hora, no mnimo.
    Sabia tambm o que Greg sentia e o que queria com ela. Era um tipo sem escrpulos, que no se detinha nem mesmo em nome de uma amizade, quando queria algo.
    - No, ainda no veio - disse, dominando-se.
    - E no posso entrar?
    - Tem certeza de que serei uma boa companhia, no estando Urfe aqui?
    Greg sorriu.
    Era um homem alto e bonito. Aproximadamente da idade de Urfe e, como aquele, cursava o ltimo ano da faculdade.
    - Tenho certeza de que vai me aturar, enquanto Urfe no chega - disse Greg, sorridente.
    - Entre.
    E abriu a porta de par em par. Greg entrou, com ar desenvolto. Com as mos nos bolsos, deu algumas voltas pela sala.
    - Tudo aqui cheira a voc, lembra voc.
    - A mim?
    - Voc  uma garota especial, Ktia -murmurou suavemente. - Muito especial. Por voc, qualquer um cometeria uma loucura, com prazer.
    - No lhe pedirei que a cometa, Greg.
    - Eu sei. Est apaixonada pelo Urfe.
    - Exatamente - disse secamente.
    Greg tirava o casaco de couro e o deixava sobre uma cadeira. Depois, olhou para Ktia.
    Era mais alto que Urfe e mais bonito, e vivia infinitamente melhor.
    Greg o sabia.
    - Podemos fazer uma coisa, Ktia.
    A jovem comeava a passar a cala de Urfe a ferro.
    - Que coisa?
    - Eu sou rico. Perteno a uma famlia endinheirada. No me negam nada.
    - Sorte sua.
    - Eu no briguei com meus pais. Acho isso uma besteira.
    - Brigar? - perguntou Ktia, entre zombeteira e irritada.
    - Sim, claro. Para que vou me zangar se, de qualquer forma que seja, fao o que me d na veneta e tenho o que quero? O dinheiro  importante. Veja voc - balanava-se 
sobre as pernas compridas. - Eu no trabalho. Limito-me a estudar. Gosto de faz-lo. Dentro em pouco terminarei o curso e terei um emprego espetacular. Viverei como 
rei a serei feliz.
    - Cada um mede sua felicidade segundo sua mentalidade, no?
    - No quer me entender, no , Ktia?
    - O motivo de ter vindo, e vem muitas vezes quando Urfe ainda no chegou?
    Greg se inclinou para ela. Sua voz estava rouca.
    - Eu a elevaria at mim. 
    Ktia riu.
    - O fato de Urfe e eu prescindirmos de certos documentos burocrticos no quer dizer que nos faltemos um ao outro. Quanto ao seu dinheiro, Greg, fique com ele. 
Nem Urfe nem eu jamais lamentamos ter menos dinheiro que voc. Ns no damos ao dinheiro a importncia que voc lhe d.
    - Ou seja, voc me entendeu.
    - Sim, mas me pergunto o que dir Urfe, se eu lhe contar.
    Greg se endireitou, ficando meio tenso.
    No  que estimasse Urfe. Greg no estimava ningum. Mas Ktia se deu conta de que era o tipo do homem covarde, muito parecido com Jerry.
    - Urfe - disse Greg,  meia voz, algo confuso - no precisa saber de certas coisas. Veja. Eu no lhe peo que venha comigo. Que tolice! Podemos nos divertir 
tanto, sem necessidade de dar um escndalo, e menos ainda, atrair publicidade. Duas pessoas se entendem e no precisam anunci-lo.
    - Compreendo-o, Greg.
    - E o que diz? - perguntou, esperanado. 
    Ktia dobrou a cala que passava. Deixou-a sobre as costas de uma cadeira e disse, bem suave e mansamente:
    -  para que Urfe use, quando formos hoje  noite  discoteca.
    - Ktia! Estou falando de mim.
    - Eu falo de Urfe. E por sinal, parece que ele est chegando.
    Greg deu um passo atrs. Ficou na expectativa. Quando ouviu o rudo da chave na fechadura, e depois a voz de Urfe, ficou ainda mais tenso.
    Olhava para Ktia, suplicante, e ela o fitou com desdm.
    -  Urfe - disse Ktia. - Quer dizer algo a ele?
    - Escute, Ktia, aquilo era brincadeira.
    - Assim espero - disse Ktia, secamente. E caminhou at o corredor por onde vinha Urfe.
    - Est por a, Ktia?
    A jovem foi ao seu encontro, abraando-o. Urfe a fitou longamente. Depois, beijou-a na boca. Ao erguer a cabea, avistou Greg.
    - Ah! - disse, passando o brao em volta da cintura de Ktia. - Voc j chegou...
    - Vim estudar com voc...
    - Sei - disse Urfe, sereno. - Ento, vamos. Amanh tenho uma prova; suponho que no esqueceu que voc tambm tem. - E logo, soltando Ktia, mas olhando-a intensamente: 
- Vai nos fazer um ch, amor? 
    - Sim.
    Foi depois, quando estavam no nibus, em direo  discoteca, que Urfe murmurou:
    - Ele sempre faz isso, no ? 
    No sabia a quem se referia.
    - No entendi.
    - Refiro-me a... Greg. Sempre chega com antecedncia?
    - Bem, de vez em quando. Por qu?
    - Por nada.
    - Em que pensa, Urfe?
    - Em voc.
    E atraiu-a para si.
    - Ktia, Greg no  uma boa pessoa. 
    No podia lanar um contra o outro. No queria perturbar sua vida por uma coisa de que ela podia se livrar sozinha.
    Mas tampouco suportava que Urfe sentisse cimes.
    - Greg  incapaz de ser leal aos seus amigos.
    Pelo visto, Urfe travava uma grande batalha ntima.
    -  seu amigo.
    - Na aparncia. Ocorrem coisas assim. Chama-se de amigo a quem no sabe s-lo, e nem sequer se sabe porque o chamamos assim.
    - No quer que eu o receba, no estando voc em casa?
    Fitou-a e, de repente, ps um dedo nos lbios femininos.
    - Sou um tolo, Ktia, no ligue.
    - Quer esclarecer isso?
    - No. Para qu?
    - No quero que sofra sem motivo.
    - E eu sofro?
    - No sofre? 
    Hesitou uns segundos.
    - No sei - disse, depois. - Juro que no sei. No me agrada dar valor ao que no tem. Creio que Greg no vale nada. E se sinto cimes e os manifesto, vou dar 
a ele um valor que no desejo atribuir-lhe.
    - Eu o amo, Urfe. 
    - Eu sei. Mas h coisas que no se pode remediar.
    - E trata-se de seus cimes...
    - Absurdo, no  mesmo? 
    Encolheu-se contra ele.
    O nibus se detinha e ambos, enlaados pela cintura, desceram. Cruzaram a rua em silncio.
    - Vou tir-lo de minha mente, Ktia - disse, baixo, antes de entrar na sala da discoteca.
    - Tirar, o qu?
    - Isso que est me perturbando.  uma tolice.
    - Que me faz sofrer.
    - V? Os dois sofremos. No voltarei a estudar com Greg. Prefiro afast-lo de nossa vida. Hoje, parece inofensivo. Amanh tambm, mas para todos efeitos,  como 
se fosse perigoso, j que eu sinto inveja, quando ele est sozinho com voc.
    - Falaremos disso  sada, Urfe. 
    Mas no falaram.
    Dir-se-ia que ambos pretendiam ocultar e dominar aquela inquietude. Esta existia nela, porque julgava conhecer melhor a Greg. Mas, quem mais sofria era Urfe. 
E era o que ela no suportava.
    Quando, cansados, de madrugada, voltavam para casa, caminhando para relaxarem, Ktia insinuou:
    - Devamos esclarecer aquilo.
    Urfe tapou-lhe a boca com os dedos.
    -  uma noite a mais - disse. - Mas nossa, s nossa. Deixe tudo para trs.
    - E voc quer deix-lo? 
    Estavam  porta de sua casa.
    Os dois, de mos dadas, entravam no portal escuro. Quando se viram no elevador, Urfe a tomou ns braos. Apertou-a com ansiedade. Com uma sbita e intensa ansiedade, 
e assim a beijou na boca.
    Ktia alou os braos e lhe enlaou o pescoo com eles.
    - Ktia... eu a amo tanto...
    - E eu... e eu...
    
    
   Capitulo 7
    Ouvia-se a voz de Urfe na penumbra...
    Uma voz clida e rouca. Um pouco abafada. s vezes se ouvia a voz de Ktia, suave e tnue. Qualquer um que os conhecesse, poderia pensar que eram pessoas muito 
comuns. Dois seres que haviam decidido unir suas vidas para trabalhar e estudar. Mas acontece que ningum os conhecia o suficiente e,  claro, o que menos conheciam 
deles era o amor que sentiam um pelo outro.
    Podiam estar muito cansados, e de fato estavam, mas jamais deixavam de amar-se ao chegar  solido do lar. E ento era quando ambos se exaltavam e esqueciam 
o muito que trabalhavam, e inclusive as aspiraes que tinham.
    - Eu no sei - dizia Urfe,  meia voz - se sou melhor ou pior que os outros. Se estou certo ou no, ao pensar como penso... O fato  que estou satisfeito comigo 
mesmo - ouviu-se um riso e depois uma voz apagada, quase imprecisa: - Sempre pensei que no era ciumento, mas nunca julguei que ia amar tanto como a amo. Sou humano, 
tenho fraquezas, no  mesmo? E comeo a ter raiva de Greg. Sabe, Ktia, quando um homem  amigo de verdade de outro, no faz nada para feri-lo. Quando tem boas 
intenes no foge de si mesmo, nem dos olhares sinceros de seus amigos. No acha?
    Estavam na penumbra. Pela janela, entrava um feixe de luz da rua.
    - No pense nisso. Agora, no... 
    Aconchegou-se a ele, ao prosseguir:
    - No h nada no mundo que evite que eu o ame - sussurrou.
    - E se um dia deixar de me amar? 
    Houve um silncio.
    Aqueles beijos diziam mais do que tudo. Eram beijos ardentes e apaixonados, e tambm cheios de ternura e carinho.
    Urfe a sentia vibrante e emocionada. Entregue  sua paixo,  sua ternura; quele desejo mtuo que os fazia esquecer as horas de fadiga, de trabalho, de separao, 
quando cada qual ia cumprir sua obrigao.
    Sentiu-a macia, apertada contra ele. Fechou um pouco os olhos. Abraou-a muito. Gostaria de eternizar os instantes daquele amanhecer silencioso.
    - Nunca - dizia Ktia, sussurrante, - deixarei de am-lo.
    - Ningum  dono de seus sentimentos.  algo alheio a ns mesmos. Eles vivem e morrem, sem que possamos evit-lo, Ktia.
    -  o que lhe ocorre?
    E se separava para fit-lo melhor.
    Urfe estava grave. Muito srio. Atraiu-a de novo para si. E de novo procurou suai boca. Eram beijos ansiosos, aqueles. Como chamas acesas. Como algo emocionante, 
a que algum se entrega sem reservas.
    - Tolo...
    - Se um dia deixar de me amar, diga-me - murmurou Urfe. - Eu no seria capaz de viver uma mentira como a de meus pais. No suportaria t-la, se voc no quisesse 
ser minha.
    - Mas... por que pensa isso esta noite?
    - No  s uma noite, Ktia. So muitas noites. No devia dizer-lhe, no ?
    Segurava seu rosto entre as mos. Foi ela, espontaneamente, feminina, quem procurou seus lbios.
    Beijou-o demoradamente.
    - Deve me dizer tudo - disse. - Tudo. De bom e de mau.  por isso que estamos juntos, Urfe. No podem existir nuvens em nossa vida. No as vamos tolerar, porque 
o nosso amor  verdadeiro. Quando ambos decidimos unir nossos destinos, foi conscientemente. Sabamos o quanto nos amvamos. Temos problemas,  claro. Mas tambm 
temos boa vontade para resolv-los em conjunto.
    - Quer que nos casemos? 
    Jamais lhe havia dito isso.
    Jamais aquela palavra surgira entre ambos. Por um instante, Ktia deixou de beij-lo. 
    - No, Urfe, por mim, no. Eu confio em voc, mas receio que comece a no confiar em mim.  isso? Ser que pretende me prender com uma certido? Acha, realmente, 
que me prenderia? No seria arriscado demais uma ameaa de cairmos na rotina? De momento, nos armamos e nos necessitamos fsica e espiritualmente. Mas... e depois? 
J se passou tanto tempo, para que tenhamos a certeza de que  para sempre?
    Houve um breve silncio.
    Ouvia-se a respirao compassada de ambos e depois a voz de Urfe, profunda. Rouca. Algo trmula.
    -  agora, quando comeo a temer perd-la. Comeo a ter cimes. Vejo inimigos por todas as partes. Sei que  totalmente minha, mas temo que me deixe de um momento 
para o outro.
    - E conhecendo-me como conhece, acha que um papel assinado iria me reter?
    - No sei. Voc iria, de qualquer jeito. 
    Procurou de novo seus lbios, e Urfe apertou-a nos braos.
    - Mas eu no me irei - ouviu-a dizer quase sobre seus lbios. - No me irei. No preciso de correntes para me prender.  bonito o nosso amor. Tudo que  nosso 
 verdadeiro, Urfe...
    
    Urfe disse, muitos dias depois, quase dois meses desde aquela noite.
    - Esto organizando uma viagem nesse fim de curso.
    Estremeceu.
    Era a primeira vez, em um ano e meio, que ia se separar de Urfe.
    Ele parecia pensativo, deitado no sof da sala. Estava fumando um cigarro, o que era rarssimo nele. Ela, que estava botando em dia seus estudos, para a prova 
no dia seguinte, ficou parada.
    No tinha a menor idia dessa viagem, mas ao ouvir Urfe mencion-la, deu-se conta de que h dias a tal viagem estava sendo programada.
    Deixou o que estava fazendo e foi se sentar no cho, ao lado de Urfe.
    - Voc no gosta de fumar - disse, tirando-lhe o cigarro.
    Ele riu. Um riso nervoso. 
    Ktia apagou o cigarro num cinzeiro prximo. Depois, inclinou-se sobre ele. Olhou-o fixamente.
    - O que teme?
    - No sei.
    - Deixar-me?
    - Greg no vai viajar.
    Ento era isso; Urfe sofria por causa de Greg. Seus cimes infundados no haviam diminudo; ao contrrio, tinham aumentado.
    - Greg no tem aparecido mais, Urfe. Por que isso?
    Urfe fez meno de se levantar, mas Ktia se inclinou para ele. Era uma garota charmosa. E tinha uma sensibilidade  flor da pele. E estava apaixonada, como 
ele por ela. S que Urfe comeava a fraquejar, a temer perd-la.
    - Em nossa vida no ocorre nada de extraordinrio - dizia Ktia, beijando-lhe o rosto - e voc tem medo. Como se vivssemos uma rotina. Para os outros, pode 
ser assim. Mas, que voc o pense, parece-me impossvel. O nosso amor no  como todos, Urfe.
    - Cada ser humano diz isso, no entende? O que sabemos de como os outros vivem o amor?
    - Ser que duvida tanto de mim?
    - Vou viajar. Terminei a faculdade, mas no terminei os estudos. No os terei concludo at me tornar professor. Por ora, preferia no ir. Afinal, no posso 
lev-la. Voc pertence a outra srie e s viajar no ano que vem.
    - Concluindo: voc no tem confiana em mim.
    - Casemos antes da minha viagem.
    Prend-la assim, no. Ela tinha que demonstrar-lhe que, fosse como fosse, estaria por si mesma presa. Nunca por imposio.
    Ia levantar-se, mas Urfe a segurou.
    - Ktia, eu disse uma bobagem, no ?
    - Creio que sim. Voc me conhece bem. Sabe que, se quisesse abandon-lo, eu o faria de qualquer modo, casada ou no com voc.  isso que voc precisa compreender.
    - Eu nunca fui um fraco.
    - Eu sei - acariciou-lhe o rosto - mas agora comea a s-lo, querido.
    - O que far na minha ausncia?
    - O que fao hoje, s que sem voc.
    - E Gregory? Vir aqui. Tentar convenc-la. Ktia - estava alterado, - Ktia, escute, ns temos pouco dinheiro. Mas, o suficiente. O dinheiro  necessrio. 
Quando a gente o tem, no lhe d importncia. Mas sem ele no se pode viver. O que temos ns? Uma casa alugada, algum dinheiro guardado. Mas...
    - Mas...
    Deixou-a sozinha no sof. De p, apertava os punhos.
    - Greg  rico.
    - Por que cismou com Greg? No o entendo. Eu no tenho cimes de suas colegas. E vocs vo viajar juntos. Talvez voc sinta vontade de beij-las algumas vezes, 
como me beija. E no fico enciumada. Sei que me ama. Isso me basta. Quando uma pessoa ama outra de verdade nunca lhe  infiel.
    - Ktia, escute...
    - E voc - disse ela, sem escut-lo - comea a duvidar de mim. Isso me di. Urfe, se eu quisesse dinheiro, se lhe tivesse tanto apego, nunca teria sado de minha 
casa, ou ento o teria convencido a pedir ao seu pai.
    - Eu jamais o faria.
    - Claro. Nem eu lhe peo. E mais, se o fizesse, me pareceria um pobre diabo, sem vontade. E eu o considero to forte, e justamente da  que nasceu a minha admirao 
por voc. No sabe me imitar, neste sentido?
    Foi at ela.
    - Perdoe-me - sussurrou Urfe. - Perdoe-me. Tem razo, querida.
    Fazia a mala de Urfe que colocava suas coisas em ordem.
    Ktia ia metendo as peas de roupa na mala. E tambm alguns objetos, como escova de dentes, pasta, sabonete...
    - No quero que lhe falte nada, Urfe. Ser que est faltando algo?
    Urfe mostrou seus sapatos.
    - No so novos, mas so muito cmodos.
    - Embrulhe-os e traga-os - disse ela. Assim fez ele. Ia partir dali a uma hora. A turma havia concludo o curso, todos iam viajar.
    - Deram-me um ms de licena na discoteca - dizia Urfe, intranqilo. - Depois, quando voltar, recomearei a estudar. Sabe quanto tempo ainda nos falta de luta?
    Ktia comeou a rir.
    Andava pelo quarto com um roupo felpudo, apenas atado  cintura. Estava descala. Era cedo, sete da manh.
    A janela estava aberta e a persiana levantada. Mas haviam se esquecido de apagar a luz.
    Sbito, ela deixou de rir, para responder:
    - Muitos anos, Urfe. Mais de seis. E no sero anos fceis, para nenhum de ns. Precisaremos nos esforar muito, para atingirmos nossa meta. Mas o importante 
 que voc, pelo menos, j deu um grande passo.
    - Ktia...
    A voz de Urfe era rouca, vibrante.
    - No quero voc indo  discoteca na minha ausncia.
    Ktia deixou de meter as roupas na maleta. Olhou para Urfe com expresso interrogante. Urfe ficou corado. Ainda estava de pijama.
    - O que quer dizer? 
    Ele riu meio sem jeito.
    -  que eu pedi licena para ns dois.
    - Para mim... tambm?
    - Sim.
    - Mas... de que vou viver? S das aulas? Voc tem que levar todo o dinheiro, Urfe.
    - Viajei muito antes de conhec-la, Ktia - disse, meio confuso. - Todo ano fazia uma viagem. Cheguei mesmo a fazer parte de comunidades hippies. Sempre fui 
meio bomio. Meus pais nunca se opuseram a meus desejos. Acho que nem sabiam aonde eu ia. Pedia-lhes dinheiro eles me davam...
    Calou-se.
    Ia se aproximando dela. Fitava-a.
    Nos olhos de Ktia persistia a expresso interrogativa, como se no soubesse aonde ele ia parar, e de fato assim era.
    - Isso quer dizer que conheo bem o mundo. Assim, ofereci-me como cicerone. Sou o nico a viajar gratuitamente, em troca dos servios de guia.
    - Ah!
    - Por isso, preciso de pouco dinheiro. Muito pouco - parecia ainda mais sem jeito. - Um ms sem voc, e sabendo-a sozinho  noite na rua, me deixa inquieto. 
Voc entende?
    - No. 
    - Ktia...
    - No entendo que desconfie de mim.
    - No  isso. No mesmo - alterou-se. -  que voc se exporia demais.  perigoso, para uma moa sozinha, andar de madrugada pelas ruas. Estaria indefesa...
    Falava aos borbotes.
    Ktia comeava a compreend-lo. Ele tinha razo. De repente, jogou-se em seus braos. Urfe apertou-a com ansiedade.
    - Compreende, no ?
    - Sim... sim...
    Sem dar-se conta, os dois caram no canap ao fundo. Era gostoso ficar ali, juntos. Sempre acontecia isso.
    Amava-o, tinha plena confiana nele, mas na hora de se amarem, sentia-se perturbada, nervosa e aquele pudor natural seu se sublimava na presena de Urfe.
    - Voc tem que ir - sussurrou ela, aturdida.
    Urfe o sabia. Ainda estava com ela. Mas iam ficar sem se ver por um ms.
    No suportava tal idia. Queria saltar por cima de tudo, lev-la com ele. O pensamento de deix-la, ainda que por um ms, enlouquecia-o.
    - Urfe... - gemeu Ktia em seus braos. 
    - O que foi?
    No o sabia.
    Sentia seus beijos como chamas.
    - Urfe... vai perder a hora.
    Ele se afastou um pouco. Ambos estavam perdidos no canap. A maleta por fechar. A luz do dia entrando, indiscreta, pela janela aberta.
    - Urfe...
    - No quer ficar comigo? - perguntou ele, alterado.
    Colou-se a ele.
    Urfe lhe dizia  meia voz:
    - Um ms sem nos vermos. Eu... no posso.
    - Tem que poder.
    - Sim, eu sei.
    - E ainda est aqui. 
    - Sim, sim.
    Era tudo como um balbucio.
    - No sei se poderei agentar o ms inteiro.
    - Tem que agentar.
    Fazia frio. Ela estremeceu.
    - Ktia...
    - Sim.
    - Seu irmo vir v-la.
    -  possvel.
    - E ento? 
    Tapou-lhe a boca.
    - No sabe o que sinto? 
    Sentia-o ele. E ela tambm sentia.
    Mas, de qualquer modo, aquele ms de ausncia ia ser para ambos como uma dura prova. Os dois o sabiam.
    - Ktia...
    - Diga. - E depois, nervosa: - Est ficando tarde.
    - Sim.
    - E voc no se vai.
    - J vou. Espere, Diga-me... 
    Disseram muitas coisas.  meia voz. Emocionados ambos.
    - Um dia teremos um filho - dizia Urfe, beijando-a. - No quer?
    - Quero, sim.
    - Quando?
    - Quando Deus quiser... Espero que chegue quando estivermos bem situados. Quando nossa vida no seja uma incerteza. Quando no tivermos que trabalhar tanto.
    No soube como se viu de novo arrumando a mala. Quando a trancou.
    Sentia Urfe s suas costas.
    Beijava-a na garganta. Longamente. Tanto, que ela estremeceu dos ps  cabea.
    Depois o empurrou.
    - Vista-se,  tarde. Vai perder a hora.
    - Tem razo.
    Via-o  sua frente. Expectante.
    - Se seu irmo vier, ou meus pais aparecerem, no saia daqui. No deixe nossa casa.
    - Mas... est ficando bobinho?
    - Diga-me, Ktia, voc me ama como o demonstra?
    - Nunca senti tal inquietude de sua parte. 
    -  porque nunca amei tanto na vida. Agora, sei o que voc representa para mim.
    - E voc para mim. 
    Afinal, estava tudo pronto. Urfe acabara de se vestir.
    Um ltimo beijo. Longo, desesperado, como se a vida de ambos se fosse nele. Depois, ele saiu.
    Um ms sem ele. Ela poderia suport-lo? Era mais introvertida que Urfe. Urfe o era antes, quando talvez se amassem menos. Mas agora Urfe estava mudado. Era outra 
pessoa. Melhor ou pior, ela no sabia! Diferente, sim. Mais expansivo. Dizia a toda hora e o demonstrava sempre que podia, o muito que a amava.
    Mas, de qualquer forma, ela continuou com suas aulas, seus estudos, sua solido.
    Foi naquele dia, quantos depois de Urfe partir? Mais de doze, quando a campainha da porta soou e ela foi abri-la.
    Viu-se diante de uma senhora muito distinta, muito bem vestida e de porte elegante.
    
    
   Captulo 8
    - Sou a me de Urfe Trap - disse aquela senhora.
    Ktia sobressaltou-se.
    Vestia uma cala de brim desbotada. O cabelo estava preso em duas tranas. Usava uma blusa de algodo, de xadrezinho. Calava botas, tipo cossaco. Mas estava 
bonita.
    Com aquela indumentria, qualquer outra garota podia ter parecido menos feminina. Ela, no. Mais feminina ainda, se possvel.
    Alice Trap piscou, entrando sem que Ktia a convidasse a faz-lo. 
    Comoveram-na os olhos azuis e lmpidos daquela jovem. Seu ar quase infantil, contrastando com o amadurecimento de seu olhar.
    - Sou a me de Urfe - repetiu.
    - Entre...
    - Soube que meu filho terminou o curso na faculdade.
    - Sim.
    - Estou contente. Nunca pensei que, ao se emancipar... tivesse juzo suficiente para terminar os estudos.
    - Pois terminou-os.
    - Tambm sei que viajou com sua turma.
    -  verdade.
    Parecia uma tola. Ela mesma o reconhecia.
    Quis recordar as coisas que Urfe lhe disse. Que aquela senhora era rica, que seu pai se casara com ela por convenincia, que ele era infiel  sua mulher e que 
esta apenas o tolerava. Que jamais haveria divrcio entre eles, embora no se amassem... Cada um era dono de sua vida.
    - Sente-se - disse, recuperando-se. 
    Alice olhava em torno.
    Havia em sua expresso uma certa ansiedade, como que uma surpresa. Acaso esperava encontrar uma tenda cigana?
    Estava tudo em ordem. Ali, alm do amor, havia vida.
    - Sua casa  bonita - disse.
    Ktia no disse nada. Estava sem graa. Ela, to valente, de repente no sabia o que fazer, ou dizer.
    - Deve sentir a falta de... Urfe.
    - Sim.
    - Ama-o muito?
    - Muito.
    - No est se sentindo  vontade na minha presena, no  isso?
    - Sim...  possvel. No... a esperava. 
    Alice sorriu apenas.
    Havia tristeza por trs de seu sorriso. Amargura. Melancolia?
    - Eu mesma no sei por que vim. Esta manh, me levantei e me disse, de repente: "Gostaria de conhecer a garota de Urfe". E no precisei pensar duas vezes.
    - Pode vir... quando quiser. 
    - Obrigada. Posso me sentar?
    - Oh... perdoe! Perdoe. 
    E lhe ofereceu uma cadeira.
    - Se no vai sentar tambm...
    - Sim, sim.
    E o fez diante dela. Fitaram-se. Como se analisando. Cada uma tentava, de todos os meios, chegar ao fundo do pensamento da outra.
    Mas no era fcil.
    Ktia achava muito difcil. Ela no podia incentivar Alice, e Alice no podia fazer o que ela fazia.
    - Se precisar de algo, e aceitar minha ajuda...
    - No - foi a resposta, pronta e seca.
    - No a necessita, ou no a aceita?
    - Nenhuma das duas coisas. Trabalho.
    -  o que no entendo.
    - Que eu trabalhe?
    - Que com o seu sacrifcio, sustentem o seu amor.  possvel isso?
    - Para ns, sim.
    - Ktia...  como se, chama, no?
    - Sim, senhora.
    - Chame-me Alice... Sabe, no sei bem porqu, mas gostaria de estar mais ligada a voc. No tenho muitas amigas. Saio e entro aqui e ali, mas quase no tenho 
amigas verdadeiras.
    - Nem eu. S tenho algumas colegas de faculdade - disse Ktia, num tom estranho.
    - Mas tem o amor de Urfe e isso a compensa.
    - Sim,  verdade. Compensa-me de tudo. ...
    Ia exaltar-se, falando do amor de Urfe, mas se calou, recordando que estava diante da me dele.
    - Prossiga, v...
    Mas Ktia no prosseguiu.
    Levantou-se lentamente e disse,  meia voz:
    - Quer tomar algo?
    Alice a olhava intensamente. De sbito, em vez de responder  jovem, disse como se falasse para si mesma: 
    - No sei por que estou aqui. Na realidade, morria de ansiedade. Sou me. No me sinto capaz de censurar aquilo que desconheo. To injustamente, direi melhor 
- sorriu de leve. Havia tristeza em seu sorriso. Ktia tornou a sentar-se. - No sou valente. Nunca seria capaz de viver assim, de fazer o que vocs fizeram. Eu 
no sei como voc viveu at vir morar com o Urfe. Mas sei como tem vivido com meu filho. O que mais me encanta - acentuou seu sorriso amargo -  ver como Urfe, que 
foi criado cheio de mimos, se adaptou a uma vida incerta. Que prescinda de seu carro, sua moto, sua comodidade... s por amor a uma garota - e sbito, fazendo uma 
pausa: - Ktia, como voc vivia antes de conhecer meu filho?
    - Folgadamente - disse Ktia, ainda hesitante. - Dependia de meu irmo, mas ele nunca me jogou no rosto o que fazia por mim. Dava-me bem com minha cunhada.  
uma mulher humilde, dcil. Dcil demais para um homem como meu irmo. Mas, se refere a minha estabilidade econmica, digo-lhe que, como no caso de Urfe, nunca me 
faltou nada.
    - E no entanto, largaram tudo e vivem com sacrifcio... tudo por amor. Estou certa?
    - Sim. Mas  que ns no damos tanta importncia ao dinheiro, como vocs lhe do.  bom ganharmos para viver. Depender de nosso esforo pessoal. Sentir a incerteza 
do dia seguinte, e saber que, de uma forma ou de outra, daremos um jeito em tudo - sacudiu a cabea. - No sei se me entende.
    - No. No fundo no a entendo, mas tambm, no ntimo, admiro-a. Tampouco sentem necessidade de assegurar seu futuro amoroso? No teme que Urfe venha a gostar 
de outra mulher?
    - Talvez essa inquietude desperte mais, em ns, a ansiedade de nos amarmos. No somos contra o casamento. Mas... ainda nos falta a absoluta certeza quanto o 
futuro. Este amor morrer, ou se converter em rotina absurda? No o sabemos. - Respirou fundo. Precisava ir at o fundo, dizer o que sentia. Aquela senhora era 
a me de Urfe e tinha vindo v-la, provavelmente s por curiosidade. - Tanto Urfe como eu temos um conceito especial do amor. Para ns, o amor no  s sexo.  importante 
um entendimento sexual e isso ns o conseguimos. Mas h outros fatores que contam e  o que precisamos conhecer, e ho de vir sozinhos. Ns nos compreendemos, necessitamos 
um do outro, nos amamos, mas isso  suficiente para consolidar um futuro, para formar famlia?
    - No entanto, esquecem o mais importante.
    - Para a senhora, ou para ns? 
    Parecia cnica. Mas no o era.
    E Alice Trap comeava a consider-lo assim, embora a ouvisse falar daquela maneira. No conhecia bem a juventude atual, mas pouco a pouco, vivendo a amargura 
do abandono do filho, ia-se dando conta de que nunca saberia falar com a coragem dos jovens. Nem de dar a cada coisa o seu nome.
    Ela vivia no vazio, como que presa de uma incerteza  contnua,   e,   no entanto, era a esposa de um homem importante, respeitada por todos, invejada por muitos, 
querida por alguns, menos por seu marido e era... sua esposa.
    Bastava s-lo? Ouvindo Ktia, no bastava.
    - Para todos.
    Ktia sorriu apenas. Tornou a levantar-se.
    - Quer tomar algo?
    - No deu uma razo para a minha inquietude.
    - Em mim no existe - disse Ktia, lentamente. - Nem para Urfe. Estamos unidos e nos amamos e compreendemos. Isso  o que importa. A sociedade, a opinio que 
tenha de ns, no nos afeta. E agora, Sra. Trap, aceita tomar algo?
    - Chame-me Alice. Gostaria de... - olhou em torno de si - poder vir aqui mais vezes. Quando Urfe estiver. No sei se fui uma boa me. No sei se dei a meu filho 
tudo o que a vida e a natureza me obrigavam a dar e, inclusive, se dei a Urfe tanto quanto ele precisava receber. Isso me pergunto agora. Antes, pensava que era 
boa me...
    - Urfe a ama - disse Ktia  meia voz. - Disso tenho certeza. Mas no se entenderam bem. Talvez Urfe tenha tido muito na vida. Nunca sentiu falta de nada, mas 
tampouco teve com quem partilhar suas dvidas. Vocs criaram seu filho, como meu irmo me criou. Mas nunca se preocuparam em saber se ramos felizes. Esse foi o 
erro. No tivemos amigos no seio da famlia. E isso  duro. No  fcil de se assimilar as coisas tendo, como Urfe e eu, um conceito muito humano da vida e da famlia. 
E no queremos cair no mesmo erro. Temos que evit-lo. De que maneira? Estamos tentando faz-lo. Esperando saber com certeza se desejamos continuar juntos uma vida 
que comeamos agora. Entende a diferena?
    Era duro ouvir aquilo.
    Mas Alice sabia que ao dar aquele passo se expunha a ouvi-lo, porque no lidava com uma jovem superficial, desmiolada. Era uma moa inteligente, madura, que 
sabia o que queria.
    Ela era mais simples. Educaram-na para ser esposa, para saber se comportar em sociedade, agir com elegncia. Mas no recebera uma instruo superior e nem tivera 
tempo para se ilustrar. Casaram-na e ela aceitou o casamento sem se preocupar com mais nada, sem esperar que com o casamento chegasse por sua vez o amor.
    - Eu no sou amada como voc - disse, de repente. - Isso saber por Urfe. Se vocs se compreendem tanto, se compartilham suas dores e alegrias, confidencias 
e felicidade, voc deve saber que meu casamento  um fiasco.
    -  o que lhe censuro - disse Ktia, sem se abalar, e adquirindo maior confiana ante aquela senhora ainda moa.
    Alice cruzou as mos no regao e tornou a descruz-las. Ficou tensa.
    - Voc me censura... - balbuciou. 
    Ktia assentiu com a cabea.
    - Por minha pouca coragem em enfrentar a realidade - disse, sem perguntar.
    - Eu jamais serei infiel a Urfe, mas tampouco tolerarei que ele o seja comigo. Nem vivo com Urfe por capricho, nem por necessidade de me emancipar, nem mesmo 
por esnobismo. Se vivo com Urfe,  porque o amo. Descobri isso um dia. No sei quando. Um dia, quase ao mesmo tempo, os dois o descobrimos. Mas, se um dia descubro 
que Urfe deixou de me amar, eu o liberarei, para que viva sua vida. Tem direito a isso. Como eu o teria, se deixasse de am-lo. No entendo que se deixe de amar 
de uma hora para outra. Mas, se isso um dia ocorresse, no vejo por que se deve continuar ao lado de algum a quem j no se ama. Falaria com Urfe sobre isso, e 
tenho certeza de que ele me compreenderia.
    
    
   Captulo 9
    Foi na noite desse mesmo dia. Achava-se no leito, olhando para o teto. Fora muito clara com a me de Urfe. E sincera, acima de tudo. No poderia deixar de s-lo, 
por se tratar da me de Urfe.
    Pensava nisso tudo, quando o telefone tocou.
    - Al.
    - Ktia.
    Sentou-se rapidamente na cama, com o corao palpitando.
    - Urfe - sussurrou. - Urfe,  voc...
    - Estou renunciando a mais alguns dlares. Mas no podia mais...
    Katia respirou fundo. Tinha a sensao de que Urfe estava ali mesmo.
    - Urfe...
    - Diga, diga. No posso demorar muito. Sabe, eu no podia mais. Morria de saudades de voc.
    - Viu? A distncia no diminui a nossa paixo. Ao contrrio, Urfe. E, neste momento, eu sinto demais a sua falta. Preciso de voc, mais do que nunca.
    - Louquinha...
    - Sinto-me muito s, mas encho meu tempo com os estudos e o trabalho. Urfe, ser essa a perfeio amorosa que ns queremos?
    - Est filosofando?
    - A vida  a mais clara filosofia que existe. Mas eu me pergunto, principalmente agora, que estou sozinha em nosso quarto, se a perfeio do amor  o que sentimos, 
ns dois. Temos futuro. Urfe? Ou ser s um passatempo? Somos vulgares, para nos amarmos e nos necessitarmos assim? Ou somos seres privilegiados que acharam o amor 
sem se dar conta, mas que o vivem descobrindo?
    - Decididamente, a solido a torna uma pensadora...
    - E a visita de sua me.
    Intuiu do outro lado do fio o sobressalto dele.
    - Minha... me? 
    Contou-lhe tudo. Sem pressa.
    - E quando lhe falei da possibilidade de um dia deixarmos de nos amar, e nos separarmos, sem mgoas, sem rancores, ela arregalou os olhos. Creio que pensou em 
si mesma e em sua passividade absurda. Sabe, Urfe?
    - Diga.
    - Sua me nunca traiu seu pai, e isso  espantoso.
    - Ktia!
    - Eu admiro sua pacincia, sua indulgncia. S fao reparos  solido em que vive. Urfe, como se pode viver assim? E como pode essa gente nos criticar? Mas, 
com tudo isto, creio que encontrei uma boa amiga. Sincera, pelo menos. Eles no tm nada contra ns. Apenas no nos compreendem. E, provavelmente, nunca nos compreendero.
    E, de repente, sem que ele dissesse nada, a pergunta rpida, quase ansiosa:
    - Quando voc volta?
    - Logo. Mas, diga-me... o que disse minha me de tudo isso?
    - Nada. Foi embora. No tomou nada. Mas me pediu para cham-la de Alice.
    - E voc?
    - Fiquei um pouco triste em conhec-la. Deu-me pena.  uma pessoa muito deprimente. Vive numa incerteza absurda. E isso, no entendo.
    - Apesar de todos sermos seres humanos, somos diferentes. E  essa diferena que eles no entendem - e numa rpida transio: - Ktia, sente muito a minha falta?
    - Como nunca pensei que pudesse sentir.  como... se eu estivesse pendurada sobre um abismo.
    - Mas eu no me demorarei, querida. No a esqueo um s instante. No me esqueo da nossa despedida.
    - Nem eu.
    Assim. Com voz abafada, de uma forma taxativa e apaixonante.
    - No posso continuar falando. O dinheiro est curto. Telefonarei daqui a uns dias.
    - Se lhe restar algum dlar - e ela riu com ternura.
    - No pense que perco o tempo. Viajo, trabalho de guia, e nos tempos vagos escrevo umas crnicas para os jornais, que so bem recebidas.
    - Voc no perde o tempo mesmo.
    -  porque, se no fizer isso, creio que acabo maluco. No consigo tir-la da cabea, Ktia, nem os meus sentimentos. So algo to profundamente meu, que...
    - Continue.
    - Eu lhe direi quando estiver a. Bem, amor, at outro dia. Eu a amo, ouviu?
    - Sim, minha vida. Eu tambm o amo. 
    Desligaram. Ela se deitou de novo e ficou horas pensando nele.
    Estava voltando para casa, quando deparou com Greg.
    - H quanto tempo no a vejo - exclamou Gregory, com a maior naturalidade. - Est indo para casa?
    - Sim.
    - Como est passando sem Urfe?
    - Mal - foi a seca resposta. - Muito mal.
    -  o que eu digo... Ou o disse o poeta? Uma mancha de amora, outra a tira.
    - Disse-o o poeta - riu Ktia sem dar importncia a Greg, sentindo-se muito acima dos desejos dele. - Soube que voc no passou em todas as matrias. Lamento 
muito.
    - Isso  que eu no entendo. Voc e Urfe to ocupados, e eu folgado,  toa... Mas, quando acaba, vocs passam e eu no.
    - Levamos tudo muito a srio, principalmente os estudos.
    - Por qu? Qual  a sua meta, se no liga para o dinheiro?
    - Dou o devido valor ao dinheiro e gosto de t-lo, principalmente se foi ganho com meu prprio esforo. No tolero  ganh-lo de algum, sem trabalhar.
    - No precisa ser to direta e cruel.
    No queria s-lo. Apenas, fazia ver a Greg que ele no era bem visto.
    - Boa noite, Greg. Estou muito cansada.
    - Espere. Ktia, voc no teme que Urfe a tenha trado, nesses dias de ausncia?
    - Sei que Urfe no me trairia, pois ele me ama, tanto quanto eu o amo.
    E Ktia fez meno de se afastar, mas Greg a reteve pelo brao. 
    - Eu tambm a amo e lhe seria fiel. E mais, a poria num pedestal, como algo muito precioso.
    Ela o fitou de modo irnico.
    - Do qual voc mesmo me tiraria, quando se cansasse, no?
    - Experimente.
    Balanou a cabea de um lado para o outro.
    - O mais bonito entre mim e Urfe  a sinceridade. Coisa que voc no conhece, nem compreende. Voc chegou muito tarde na minha vida, Greg. J dei meu amor a 
outra pessoa...
    Foi-se. Depressa.
    Entrou em casa sem que Greg tentasse ret-la. Sabia que seria intil insistir junto  Ktia.
    Era uma mulher decente, digna, acima de tudo. Mantinha-se fiel a seu modo de vida e ningum poderia desvi-la do caminho.
    Por sua vez, Ktia chegou em casa e acendeu a luz. Foi quando o viu. Estava ali, finalmente. Como envolto na penumbra. Com sua cala de brim, sua camisa de xadrez, 
seu sorriso clido e seu olhar penetrante.
    - Urfe! - gritou ela.
    E correu para seus braos.
    
   
   Captulo 10
    Era delicioso, reconfortante estar ali, naquela penumbra, naquele semi-silncio, naquela intimidade que se vivia plenamente depois de um ms de separao.
    E de vez em quando, soava a voz de Urfe. 
    - Nunca pensei que ficar longe de voc significasse tanto, me abalasse tanto...
    Ela no dizia nada. Sorvia as palavras dele, sentia profundamente cada segundo a seu lado. 
    - Diga-me, querida, diga que sentiu a minha falta.
    - Pensei at que ia enlouquecer.
    Viveu durante um ms como se pisasse nas nuvens.
    S saa mesmo de casa, quando tinha absoluta necessidade. Todos os momentos livres eram usados para estar ao lado de Urfe, amando-o, demonstrando-lhe o quanto 
era maravilhoso o seu sentimento.
    Ela mesma o procurava, a cada momento.
    - Voc  um encanto. E me deixa louco... At que um dia: Eu a vi falando com Greg.
    -  verdade.
    - O que lhe dizia?
    - Tem importncia?
    - No, mas...
    - Urfe, voc acaba de chegar em casa. Parece-me impossvel que esteja aqui e me faa perguntas to bobas, imprprias de voc. Pode-se amar assim... e pensar 
em outro?
    - No - riu ele. - Isso  verdade.
    - E tambm nunca o imaginei ciumento. Creio que j falamos nisto.
    - O que dissemos?
    - Que, se um dia um de ns deixasse de amar o outro, o diria francamente. Ou existe sinceridade, ou no.
    - Tem razo, querida. 
    Eram diferentes, mas no fundo, pareciam-se. Tinham muitos pontos em comum.
    
    Em meados de setembro, tiraram frias. E no regresso, estando Urfe sozinho em casa, pois Ktia fora dar suas aulas particulares, certo dia a campainha da porta 
soou.
    Urfe abriu e se encontrou diante de seu pai.
    O pai parecia srio, grave, bem no seu papel de homem "ofendido".
    - Ol! - saudou.
    - Entre, papai - disse Urfe, tranqilamente.
    Peter Trap entrou, olhando em volta.
    - Se quiser se sentar... Ou se est com pressa?
    - Se quer me mandar embora - continuava olhando, como se procurasse algo - desista.
    - Se espera ver Ktia, ela no est. Foi dar aulas.
    - Ela est trabalhando. E voc?
    - Estou estudando.
    - No se envergonha, de ser sustentado por uma mulher?
    Primeiro, Urfe riu, sem ligar importncia. Depois, ficou srio.
    - Tudo que fazemos, eu e Ktia,  de um para o outro. Tanto faz que seja eu ou ela a ganhar dinheiro. No momento,  ela quem est saindo para trabalhar. Chegar 
o meu tempo, e provavelmente, a ela no precisar mais sair de casa, pois eu estarei em condies de sustent-la confortavelmente. O que interessa  que temos paz, 
compreenso, entendimento...
    - Tem certeza de que tem tudo isso?
    - Claro - e sem transio, amvel, sereno: - No quer se sentar? Ou prefere ir embora j que Ktia no est?
    - No vim ver sua... amiga.
    - Minha mulher, papai. 
    Peter sacudiu os ombros.
    - Vim lhe propor trabalhar na minha empresa, que afinal um dia ser sua mesmo.
    - Minha, no. Poder ser de meus filhos, se  que o senhor no vai pass-la para mos de estranhos. Sim, porque, por mim, jogo tudo isso para o alto. Dinheiro 
demais no me atrai. J vi que se pode viver muito bem sem excesso de bens.
    O pai se sentou, bruscamente. Olhava para o filho, sem camisa, descalo e com os cabelos desalinhados.
    - Quer dizer que um dia se casa, tem filhos e d esse exemplo a seus filhos... de mendigo.
    Urfe sentou-se em frente ao pai. No estava zangado. Ao contrrio. Tinha at certa pena dele.
    - No sou um mendigo, nem vivo da caridade alheia. Vivo do meu trabalho. Se vou me casar ou no, tudo depende de Ktia. A verdade  que ambos sabemos o quanto 
nos amamos e como isso  importante. Apesar de nossas diferenas, sempre chegamos a um acordo, porque existe boa vontade, compreenso - sua voz se tornou mais mansa, 
mais suave. - Pai, h algo que o senhor ignora e  uma pena. No sabe o que  trabalhar hoje para comer amanh. No sabe como  bom pensar nisso e ter a satisfao 
de ter conseguido algo por seus prprios meios. 
    O pai se levantou. Estava vermelho, alterado.
    - Enfim, voc no aceita trabalhar comigo.
    - Sou ou pretendo ser professor de faculdade, papai, no comerciante seja l do que for. O senhor me entende?
    - E para que trabalhei eu toda a minha vida?
    - Isso  relativo. Vamos deixar de lado isso de que trabalhou. O senhor fez os outros trabalharem para si. Mas isso no importa agora. O que eu digo  que, trabalhando 
ou fazendo que trabalha, esquecendo-se de seus deveres de pai e marido, vivendo apenas para suas prprias satisfaes, deixou de viver a verdadeira existncia. Perdeu 
algo que jamais recuperar. Perseguiu a parte mais cmoda da vida e cometeu um grave erro. Nas dificuldades tambm h satisfaes. Nas alegrias, sonhos... O senhor 
no sabe o que  isso.
    - Basta, Urfe. Basta.
    - Desculpe, mas o senhor veio me procurar, tinha que ouvir o que eu penso. Se no quiser me ouvir, no me procure. Respeito-o, mas no lhe dou razo, porque 
no a tem.
    Peter Trap girou e se dirigiu  porta. Saiu, sem dizer uma palavra.
    
    
   Capitulo 11
    Quando ia entrar em seu automvel, avistou a garota loura. Frgil, com expresso de profundo amadurecimento.
    Teve a intuio de que era Ktia e resolveu queimar seu ltimo cartucho.
    Urfe podia ter suas idias, mas ele no ia deixar o filho entregue  prpria sorte... Ele  quem estava certo, quanto  noo exata de felicidade, no o filho.
    Talvez convencesse a garota.
    Afinal, Urfe era seu nico filho. O que tivesse ao seu alcance, o faria, para assegurar o futuro dele.
    - Voc  Ktia Dailey?
    Ktia, pois era ela, deteve-se e olhou para o cavalheiro bem vestido.
    - Sim, sou eu - disse.
    Peter Trap sentiu-se inibido, sem saber porqu.
    Talvez a culpa fosse daqueles olhos azuis e lmpidos. Sua firmeza de expresso. A segurana de si mesma, e aquela expresso de felicidade conseguida com o prprio 
esforo.
    Quem estaria errado, afinal? Os dois jovens ou ele?
    - Sou o pai de Urfe. 
    Devia ter imaginado.
    Os dois tinham traos semelhantes.
    - Ah!
    Foi a nica exclamao. E os olhos azuis no denotaram perturbao.
    - Estive com meu filho.
    Ktia permaneceu muda. Nos seus olhos lia-se uma leve interrogao.
    - Vim oferecer-lhe trabalho.
    - Ah!
    S isso. Peter sentiu uma sbita raiva. Era como se falasse a uma rocha. E no entanto, havia sensibilidade naquela jovem. Notava-se isso s em fit-la.
    Mas, para os efeitos, parecia-se com Urfe. Dura, irredutvel.
    - Em meus negcios, que amanh sero dele.
    Ktia mantinha os lbios cerrados.
    - No admito que voc o sustente.
    - Por qu?
    Tinha a voz clida. Suave, personalssima. Peter Trap apertou os lbios.
    - Porque  mulher.
    - Isso  o que nos separa - disse Ktia. - Esse modo de pensar.
    - No entendo.
    - O que faa Urfe, ou eu, d no mesmo. Tanto faz que ele trabalhe, ou eu. O que  dele,  meu, e vice-versa. No vivemos brincando. Somos seres humanos conscientes 
e sensatos, s que no temos preconceitos tolos.
    - Ou seja, tambm com voc  impossvel dialogar.
    - No momento em que cismou de nos fazer pensar a seu modo,  intil qualquer dilogo.
    - E o que diz sua famlia? - gritou, sem poder se conter. - Tambm est de acordo com essa forma de viver de vocs dois?
    - No perguntei ainda - riu, divertida. - Mas teria dado no mesmo. Sou maior de idade. Sou dona de meu nariz.
    - E no pretendem se casar nunca?
    - Comeamos a pensar nisso, mas s o faremos depois que ambos terminarmos os estudos.
    - Mas meu filho  rico. Podem se casar agora mesmo.
    Ktia riu. A teimosia daquele homem a divertia.
    - No si como nossos filhos, se os tivermos, aceitaro a herana que o senhor lhes deixar. Se consigo o que no consegui que fizessem comigo, isto , ser amiga 
de meus filhos e viver seus problemas, no a aceitaro. O dinheiro, Sr. Trap, nunca  fortuna segura. O certo  o que est aqui - apontou o crebro. - O demais  
passageiro.
    O homem ficou desapontado.
    - O que posso fazer para convenc-los?
    - Procure se convencer de que estamos certos, e o senhor, errado - disse Ktia, simplesmente.
    Em seguida, fez uma inclinao de cabea e entrou em casa.
    
    Naquela noite, Peter Trap, resolveu jantar em casa, coisa que raramente fazia. Sentia-se arrasado.
    - Estive hoje com Urfe - comentou com Alice, a qual ficou logo interessada. - Ofereci-lhe trabalho na empresa.
    Alice suspirou.
    - Imagino que ele no aceitou.
    - Como sabe? Conhece-o tanto...?
    - Antes, quando vivia aqui, no. Mas aprendi a conhec-lo quando nos deixou. Ns o criamos, Peter, mas no o conhecemos.
    - Est me culpando disso?
    Alice no queria discutir com o marido. No adiantava.
    - Voc... a conheceu? Digo, a Ktia?
    - Sim. Mas... como sabe o seu nome?
    - Tambm a conheci. Fui procur-la, sabe? Foi bom, porque fiquei sabendo porque Urfe nos deixou, para ir viver com ela. Ns erramos, Peter. No soubemos compreender 
nosso filho.
    - Por que o diz?
    - Atravs de Ktia, conheci melhor nosso Urfe. Ambos so pessoas com uma mentalidade simples, sadia, sincera. E vivem com uma verdade que eu comeo a pensar 
seja a verdade de todos; no a nossa falsidade, to comum nas famlias de ontem, que no souberam enfrentar a realidade, quando esta nos aparecia mais crua.
    O marido comeava a pensar assim tambm mas no queria dar o brao a torcer. Por isso se levantou, deu um saco na mesa e foi se trancar em seu escritrio.
    Alice ficou sentada onde estava, muda e quieta, como se no sentisse ou visse nada. Mas sentia. Lamentava no ter agido de outra forma na vida. E, olhando para 
o passado, para a mentira de toda uma vida, compreendia por que seu filho fugira daquele lar sem base, sem amor, sem harmonia.
    Tomara que Peter casse em si e reconhecesse o quanto andara errado. E que, um dia, pudessem estar todos juntos, eles, Urfe e Ktia, como uma s famlia, unida 
e feliz.
    
    
    
   Captulo 12
    Sem maiores problemas, Ktia conseguiu terminar seu curso na Faculdade.
    Esquecendo-se um pouco at de seu prprio amor, ela e Urfe viveram praticamente para os estudos de ps-graduao. No entanto, todas as noites, os dois iam  
discoteca; ele a tocar seu instrumento musical, e ela a atender no guarda-roupa. E na manh seguinte, ambos davam aulas particulares, a fim de poderem comer e ter 
certa tranqilidade material.
    No ano seguinte, Urfe conseguiu uma vaga como professor adjunto e Ktia pde deixar a discoteca, j que conseguira uma colocao num colgio de crianas.
    A vida de ambos se tornou mais serena. Dormiam mais horas, descansavam mais e tinham mais tempo para trocar impresses.
    Foi assim que um dia, inesperadamente, Urfe tocou no assunto:
    - Acho que  a hora de termos um filho e, para t-lo, devemos nos casar. O que me diz, Ktia?
    Ktia no disse nada. Estava deitada no sof, com um livro na mo e, ao ouvir aquela proposta sbita, ficou sem ao.
    Vivia bem. Confiava em Urfe. Admirava-o e amava-o, e j tinha provas suficientes de que seu amor era firme.
    Ambos sabiam, com convico, que tinham nascido um para o outro. Eram amantes, companheiros, amigos. Enfim, um completava o outro. No havia mais medo de um 
fracasso. 
    - Ktia, no me respondeu.
    A jovem virou um pouco a cabea, para v-lo melhor. Urfe deixou a cadeira onde estava sentado e foi para a beira do sof.
    - Assim me v melhor - riu. - Ento, o que me diz?
    - Dizer?
    - Sobre ns. Alcanamos a nossa meta. Tenho um bom emprego. Voc est a ponto de atingir seu objetivo profissional, e enquanto isso, tem uma boa colocao no 
colgio infantil. Sabemos o que queremos, ningum se mete em nossa, vida. J  hora de formalizar nossas relaes. No h mais dvidas em ns.
    Ao falar, ia delineando seus traos com um dedo.
    - E por que tanta pressa, Urfe? - riu, divertida.
    Urfe a fitou intensamente. Depois, foi se inclinando. Os dois se fitavam muito, at que Urfe procurou os lbios femininos.
    - Ktia - disse.
    A jovem estremeceu. Conhecia bem Urfe. No houve mais palavras. Quase nunca as havia quando viviam aqueles momentos. E eram muitos, com todos os estudos, as 
canseiras, o trabalho.
    Os beijos de Urfe continuavam sendo, para ela, como os primeiros. Recebia-os com a mesma intensidade de Urfe. E para ele, Ktia tinha a cada dia um novo encanto, 
diferente.
    - Estava... estudando - sussurrou Ktia, rindo baixinho.
    Urfe no lhe fez caso.
    Quase tocando-lhe os lbios, murmurava:
    - Vamos nos casar, querida. O quanto antes. Quer?
    A partir de ento, passaram a falar em casamento.
    Um dia, Urfe chegou em casa e encontrou Ktia radiante.
    - Consegui uma cadeira num colgio estadual.
    Urfe a fitava, espantado.
    - Conseguiu-o antes de mim?
    Ela ria, feliz. E mostrava a ele a circular. 
    Urfe a leu, depois abraou-a, rodopiando com ela nos braos pela sala.
    - E o que vamos fazer agora? Ambos estamos atingindo o que sonhvamos.
    - Nada mudar entre ns - murmurou Ktia, pensativamente, enquanto enlaava o pescoo de Urfe. - Pode-se trocar este sof, o tapete e at comprarmos um apartamento 
maior, mas nosso carinho ser sempre o mesmo, crescendo a cada dia. Isso  o que eu creio. No nosso amor imenso, Urfe...
    O mais interessante  que ela sempre tinha o dom de despertar nele um desejo louco, um carinho enorme. E, cada vez que se pertenciam, era como se fosse a primeira, 
com o mesmo calor e a mesma paixo.
    s vezes, era um simples gesto de Ktia. Um olhar, um sorriso. E Urfe largava o que estava fazendo para vir beij-la, am-la muito.
    Quando se separaram, Ktia exclamou:
    - Gosto desta casa,  pequena, mas bonita. Aqui vivi os melhores anos de minha vida. Cada detalhe, cada objeto me lembra voc. Nossas noites de trabalho na discoteca; 
nossos estudos; nossas esperanas. Tambm passamos por momentos difceis - acrescentou, fitando-o amorosa - mas soubemos passar na prova. E agora, cada olhar, cada 
sorriso, cada suspiro, sabemos o que significam. Isso  muito importante.
    Ia de um lado para o outro, lentamente, e Urfe, sem se dar conta, a seguia, at que a reteve pelos ombros. Ficou com as costas de Ktia junto a seu peito, prendendo-a 
contra si, pousando o rosto no pescoo da mulher.
    Foi bonito, delicioso, comovedor, o gesto de Ktia. Sem mover-se, elevou uma das mos e, de costas como estava, acariciou a cabeleira de Urfe.
    - Ktia... temos falado muito do futuro. Falta-nos algo. Quero ter um filho seu. No vamos esperar mais.
    Ktia girou, devagar, muito devagar e olhou longamente para Urfe.
    Ele apertou-a nos braos. Outra vez tornou a esquecer-se do casamento, de seus pais, mas sabia que, no fundo, faria o que dizia Ktia. 
    Iam se casar. Depois cada um teria a sua vida, e se respeitariam do mesmo jeito, mas saberiam que eles estavam ali, e que os pais existiam tambm...
    
    
   Captulo 13
    Peter Trap, ao lado de Alice, presenciava aquela cerimnia simples, cativante.
    Silencioso, chegava  concluso de que sua vida fora um fiasco completo. Era rico, tinha uma esposa. Mas nunca vira nos olhos dela aquela expresso de felicidade 
que via nos olhos de sua nora.
    Agora, era tarde para recomear. Desperdiara seus melhores anos, por causa de uma ambio desmedida.
    E sentiu pena de si mesmo, que passara pela vida mas no a vivera, porque no amara de verdade.
    - Agora - disse Urfe, depois de beijar sua me e abraar o pai, tendo a esposa enlaada pela cintura - pensaremos num filho. O quanto antes - olhou para sua 
esposa. - No , Ktia?
    Ktia assentiu. Tinha os olhos midos. No imaginara que uma cerimnia to simples e emocionasse daquela forma.
    Apertou com as duas mos o brao do marido. No acreditava que ele fosse mais seu do que antes, mas era diferente. Sentia que era diferente.
    - A felicidade - dizia Urfe, pensativo - chega a doer dentro da gente. No  absurdo?
    No era. Sua me pensava que no era. Gostaria de fazer o tempo voltar atrs, comear de novo, amar... Alguma vez amara seu marido? No o sabia. Mas sabia de 
algo que lhe dava muita tristeza. Havia passado pela vida sem se dar conta. Vivera o amor (se amor podia chamar-se) como uma rotina.
    Beijou seu filho e depois Ktia, com grande ternura.
    - No sei - disse, emocionada - por quantas provas ter passado seu amor, mas estou certa de que foram muitas e vocs saram ilesos. Isso  o mais importante. 
- E contendo sua emoo, acrescentou: - Aonde vo passar a lua-de-mel?
    Eles riram. Um riso malicioso e clido. Urfe chegou mesmo a dar um tapinha no rosto da me, com ternura.
    - Depois que conheci Ktia, sinto-me um homem diferente. Melhor, disposto a compreender os outros - olhou para o pai. - No estrague sua vida, papai. Procure 
agora descobrir o que ela tem de bom e de bonito. Ainda h tempo para ser realmente feliz...
    Dito o qual, juntou as mos dos dois.
    - Ktia e eu - disse, sem soltar as mos de seus pais, que unia com as suas - no viajaremos. J o fizemos antes, e agora temos nossas obrigaes pela frente. 
Mas estamos contentes, mesmo assim. Nossa casa no  grande, mas est repleta de boas recordaes e alegrias.
    A me sorria, os olhos cheios de lgrimas. 
    - Por que no vm morar conosco? - exclamou.
    - No, mame. Ns vivemos bem assim, em nosso prprio lar. Mas no se preocupe. Iremos visit-los sempre. E nossa casa estar sempre aberta para vocs. Eu e 
Ktia preferimos, levar a vida como temos levado at hoje, cumprindo nossos deveres e nos refugiando em nosso apartamento, entre nossos livros, nosso amor e, muito 
breve, espero, nossos filhos. No ser porque nos casamos que mudaremos, que passaremos a freqentar a sociedade. No  de nosso feitio, vocs j sabem.
    
    O tempo foi passando. Eles continuavam se encontrando no refeitrio da faculdade, depois tomavam o nibus e iam para casa, juntos.
    Alice ia visit-los sempre. Peter tambm. Uma ocasio, quis dar um carro ao filho, mas este o recusou delicadamente.
    - Temos a moto, mas raramente a usamos. Quando tivermos um filho, talvez compremos um carro, mas no momento, gostamos mais de viajar no meio de outras pessoas, 
comuns como ns. 
    Em outra ocasio, quando Peter quis lhes dar algum dinheiro de presente, Ktia mostrou-lhe um livrinho, cheio de nmeros.
    - Aqui temos anotada toda a nossa despesa, o que recebemos e o que nos sobra. Voc no sabe, Peter, como isso  bom. Controlar nosso dinheiro, pensando no filho 
que podemos ter. Chega a ser gostoso, sabe - riu, - juntar dinheiro pensando em algum que vai nascer. Se aceitssemos esse que nos quer dar, qual a emoo que sentiramos?
    Peter no podia entender. Como no entendia o amor que havia naquela casa pequena, nos menores gestos, em cada palavra, em cada olhar.
    Foi numa noite qualquer, estando ambos no canap, abraadinhos, que Ktia sussurrou no ouvido de Urfe:
    - Tenho algo a lhe contar. 
    Ele ria nervoso.
    - Est me fazendo ccegas. 
    Ktia segurou o rosto do marido entre as mos, depois o beijou com tanta emoo, que Urfe sentiu que acontecia realmente algo novo.
    - Ktia, o que foi? Voc est diferente... Est...
    - Estou esperando um filho.
    Urfe deu um pulo.
    -  verdade? Tem certeza?
    - Neste estado, sinto falta de uma me, e como no a tenho, mandei chamar a sua. Ela foi comigo ao mdico. Ele confirmou o que eu suspeitava.
    Urfe parecia ter perdido o juzo.
    - Mas hoje mesmo estive com ela e mame no me disse nada!
    - Claro! - ria, encantada. - Pedi que guardasse segredo. Queria eu mesma contar-lhe, agora, neste sof.
    - Oh, Ktia!
    - Amo-o, Urfe. Creio que mais do que nunca.  como se...
    No pde terminar. Urfe a apertava nos braos. Beijava-a como um louco. Extasiava-se ao seu lado.
    
    Na manso dos Trap, Alice contava ao marido.
    - Peter, Ktia est grvida.
    Peter sentiu uma doce emoo. Chegou a fitar sua mulher de outro jeito. Com certo carinho. Afinal, iam ser avs. Ainda podiam desfrutar de algumas alegrias, 
juntos.
    Mas, no pequeno apartamento, Ktia dizia, baixinho:
    - Louco, louquinho...
    - Hoje, sinto-a mais minha do que nunca - dizia Urfe, com ardor. - Percebe?  como se comessemos agora...
    
   Fim
    

Vamos viver o nosso amor 
